segunda-feira, 1 de julho de 2013

Linguagem e Concepção



Parte 6

Arriscar é preciso

A arte foi um show a parte. O diretor de arte Bernardo Zortea, com quem já realizei alguns bons trabalhos de dramaturgia e documentário, colabora muito para a concepção das obras que trabalhamos juntos. É uma equipe, de certa forma, já bem afinada pois vem trabalhando junto há um bom tempo. Dessa vez, no entanto, o Bernardo resolveu inovar radicalmente quanto a equipe dele, chamando um figurinista e uma maquiadora com quem ainda não havíamos trabalhado juntos. Trazer o Régis Duarte, que é um estilista já de renome em Porto Alegre para fazer o figurino e, já que ele não teria experiência de set, aproximar o talento dele como estilista no desenvolvimento dos uniformes das delegações e na construção do figurino de cada personagem, com a experiência da Débora em set de filmagem, foi uma opção que se mostrou acertada. Trouxe ao trabalho a disciplina que o mesmo exige mas muita oxigenação na hora de desenhar os uniformes das equipes, por exemplo. Era o olhar de um estilista sobre o trabalho e não apenas de um figurinista. A outra proposta foi de trazermos a maquiadora argentina Nancy Marignac, radicada em Garopaba, e com muita experiência em cinema e TV, embora não trabalhe muito no mercado de Porto Alegre. Isso também significou um novo olhar sobre a concepção de arte. Foram decisões acertadas do Bernardo que, realmente, trouxeram um frescor para o set e para a arte como concepção o que, dificilmente, obteríamos se estivéssemos trabalhando, por exemplo, com um figurinista que ao mesmo tempo estivesse pensando em dois ou três trabalhos de publicidade em Porto Alegre, que é o que ocorre com os bons figurinistas com quem trabalhamos aqui no mercado gaúcho.



Ainda sobre figurinos, na primeira reunião geral da equipe, sugeri uma ideia de certa forma radical. Propus que nenhum personagem tivesse mais de um figurino além dos uniformes de jogo. Ou seja, para ajudar na caracterização estereotipada de cada personagem, que todos tivessem a sua roupa, com a qual o público se identificaria. Apenas duas exceções eram permitidas: a primeira quando eles estivessem em quadra, jogando, pois aí estariam com os uniformes dos seus times e para a Pilar, a prefeita. Ela sim teria mais de um figurino, aliás, variando constantemente de roupa e criando, dessa forma, um contraste com os demais personagens.





Essa escolha, mais uma vez, se mostrou acertada por conjugar necessidade e criatividade. Continuidade de figurino é uma das coisas mais difíceis em cinema e TV. Levando em conta que a nossa equipe era reduzida, para o tamanho da série que estávamos gravando, não teríamos no set uma pessoa responsável unicamente pela continuidade. Consequentemente, se nossos personagens trocassem de roupa constantemente isso, cedo ou tarde, causaria confusão. Por isso, simplificar a questão permitia maior controle sobre as gravações, mas não era só isso. Na verdade, a ideia surgiu por outros motivos. Demonstrar, através da manutenção dos mesmos figurinos, o estado de estagnação que aquela sociedade de Sereno do Sul se encontrava. Já a Pilar mudava de figurino pelo menos umas cinco vezes, escolhendo roupas exageradas, construindo assim um contraste entre a estagnação sóbria dos demais personagens e o progresso equivocado representado pela Pilla. Isso ajudou a diferencia-la dos demais personagens, mas também trouxe, para ela, um toque burlesco, refletindo no seu figurino o equivoco da noção de progresso que ela – e a maioria de nós – tem em mente. Afinal, o que é progresso, construir um prédio de vidro muitas vezes de gosto duvidoso no lugar de uma casa secular, única na região?



















Nenhum comentário:

Postar um comentário