quarta-feira, 3 de julho de 2013

Construção de personagens

Parte 8

Troca de emails diretor para atores 

E-MAIL DIRETOR PARA ATORES

Vejo a Pilar como uma mistura de Tieta, Porcina e uma Mamma italiana, protetora e um tanto “antiga” nas suas convicções. Enfim, uma personagem feminina forte, “faca na bota”, mulher, que cuida da casa, organiza a vida do marido, se preocupa com o pai e ainda tem tempo para cuidar de toda a cidade. Gosto muito do teu trabalho, Fernanda, e quando falamos do personagem a primeira vez, na hora pensamos em ti. Nas leituras já comecei a perceber a Pilar saindo da tua boca e estou ansioso pra ver a química entre a Pilar e Nelson, que na minha opinião, é um fator determinante para o sucesso ou não da série. Para isso temos que construir bem a Pilar e a forma como ela se relaciona com o Nelson.

Apesar de alguns exageros, a Pilar é um personagem do bem, que abriu mão da própria felicidade em nome do “progresso”. De certa forma, o progresso é também a vaidade da Pilar. Acho que o que precisamos construir é essa força dela, que é força sim, mas também é disfarce para a sua incapacidade de ter tomado as rédeas da própria vida quando pôde fugir com o Nelson.  Ela fez sua escolha, mas não está bem certa que fez a melhor escolha, no entanto, sua personalidade não permite que ela assuma isso. Quer dizer, apesar de toda essa força, foi incapaz de seguir o próprio coração, talvez por medo do que a sociedade iria falar, talvez porque realmente acredite no tal progresso (idealismo puro). O fato é que, justamente quando ela teve a chance de mostrar toda sua força e usar sua força para construir essa história de amor, ela fraquejou e isso deixa ela puta, porque ela sabe disso, mas não pode aceitar nunca, não perante os outros, e por isso se esconde por trás do seu cargo, da sua voz, da sua linguagem corporal exagerada, como aqueles animais que, para se defenderem, perante o perigo, se esticam ou abrem as penas para parecerem maiores do que realmente são. Para Pilar, o “progresso” é a desculpa perfeita para fugir da sua própria fraqueza. Em nome do progresso derrubamos árvores, alargamos avenidas, destruímos um prédio histórico. Em nome do progresso também abrimos mão do amor? De uma vida simples ao lado da pessoa que nos dá a verdadeira segurança?

Tá aí, quem sabe, duas boas relações entre a Pilar e o Nelson. O Nelson, que é da lei, é o cara que na cidade deveria ser o responsável pela segurança, mas justamente porque ele foi negado e abandonado pela Pilar, acabou por, de certa forma, abrir mão da própria vida. Um cara que outrora fora cheio de vida, hoje é um "tanto faz", quer dizer, não pode garantir segurança para mais ninguém. E numa cidade parada no tempo – contraponto ao progresso que a Pilar tanto busca – só lhe resta consertar privadas e trocar lâmpadas.

O outro personagem com quem a Pilar se relaciona com ambiguidade é a própria cidade. Uma cidade que parou no tempo, que tem prédios velhos, onde as pessoas pararam no tempo, onde o passado e o presente convive de forma equivocada, kitsch. A Pilar, em nome do progresso, adoraria colocar abaixo toda aquela velharia e construir prédios de vidro espelhado no lugar. Mas lá fundo, será que ela gostaria mesmo? Ou o que desperta a humanidade dela é justamente a simplicidade, as memórias de uma infância feliz e os momentos nos braços daquele que, um dia, foi o único que soube lhe dar a segurança que ela sempre buscou? E aquela cidade, no fundo, não é a própria metáfora dela mesma? Prédios antigos, tradicionais, seguros, firmes, que lá estão há mais de cem anos e seguem fortes e firmes.

Por isso tudo, minha forma de ver a Pilar, pensando sim em um pouco de estereótipos, é uma personagem cheia de energia, viva, forte, "espaçosa", que fala alto, mas também que guarda uma mágoa lá no fundo do coração, uma mágoa que, de certa forma, é justamente o que lhe dá humanidade. Uma personagem cheia de contrariedades internas, que ama, mas que esconde, que é forte, mas que fraqueja, que sonha com o progresso, mas que chora escondida as saudades do tempo que era criança e protegida pelos pais... ou talvez, apenas pelo pai, a mãe pode ter morrido relativamente cedo. E reforça a vontade louca de Pilar em trazer de volta o Mundial de Bochas, pois o pai sempre fora amoroso, prestativo e carinhoso com ela, até aquele fatídico campeonato perdido vinte anos atrás. Ou seja, trazer o campeonato de volta é uma nova chance para a cidade, para o pai, para os jogadores, mas principalmente para ela porque, de certa forma, é uma possibilidade de resgatar aquilo que lhe restava de mais puro, o carinho do pai.

Quanto ao Nelson, imagino muito a cena que ela está dormindo na casa dele e acorda bêbada. No roteiro ela levanta, olha pra ele, sorri e vai embora. Na minha cabeça ela se aproxima dele, ela tenta lutar contra o próprio personagem que ela construiu, ela chega até a aproximar a mão do rosto dele enquanto ele dorme, mas um espirro dele acaba por assusta-la e coloca-la de volta a realidade. Por que o espirro? Porque o espirro contido do Nelson é a metáfora da sua derrota. Ele carrega a culpa da derrota do campeonato por causa do espirro, mas também o espirro dele não é "extrovertido" e sim "introvertido", contido, quase com culpa de espirrar, um espirro pra dentro. Um personagem extremamente humano e que se preocupa com os outros, um personagem que tem medo de “morrer na contramão atrapalhando o tráfego”, que carrega consigo essa culpa toda, por isso quando espirra, segura o espirro, para não atrapalhar ninguém. A Pilar admira essa humanidade dele, mas não o reconhece mais, pois ele mudou depois daquela noite que levou o bolo dela. Ela procura, no Nelson dormindo, aquele amante do passado, mas o espirro a faz ver o Nelson de hoje, um fracassado.

Nelson nem sempre foi assim, pelo contrário, escolheu a profissão de policial pois queria cuidar dos outros, proteger os outros, e tinha talento para isso. Ser policial dizia muito sobre ele, sua segurança ao caminhar, ao se relacionar com as pessoas, etc. Isso será bem marcado nos flashbacks quando ele está tão seguro de si, e a Pilar também, que ele se dá o luxo de brincar com o amigo que está tirando uma onda dele pelo rádio enquanto ele namora escondido no parreiral. Quer dizer, outro homem, mas que sofreu o baque por justamente ter uma enorme coração e mais do que raiva da Pilar, ele tem pena dele mesmo. Meio que perdeu a esperança da vida e, por isso, não se importa mais muito com o homem no qual se transformou.

Precisaria ver de novo o último filme do Wes Anderson, Moonrise Kingdon,  pois tem um personagem de um policial, o policial da ilha, que é um pouco isso, tem uma amante casada, é apaixonado por ela, mas eles não tem coragem de seguirem suas vidas... é um personagem do Bruce Willis, talvez fosse bom ver esse filme para ajudar a construir o Nelson.

O Ítalo é aquele cara que tu conhece e logo quer distância. É um chato, reclama de tudo, todos estão errado, faz questão de manter essa fama e desde o último campeonato virou um também um ser isolado, parou de ser visto na vila. Ele só se dava bem com a filha, amava a Pilar de paixão e vivia pra ela, até aquele campeonato fatídico quando tudo mudou. Acredito que esse distanciamento da própria filha seja, de certa forma, autopenitência. Algo como “vou me afastando pois assim a protejo, quando ela descobrir o que fiz já estará tão afastada de mim que o meu erro será uma decepção menor”. E está aí uma grande prova da humanidade e do amor que ele sente pela filha. É discutível, sim, mas é verdadeiro.

O personagem, por fora, é um chato, mas por dentro ele tem que ter uma humanidade, ele tem que até ser legal, a ponto de, às vezes, mesmo dando nos dedos dos outros, mesmo sendo ranzinza, essa humanidade que é da sua essência, que é inerente a ele, traga um pouco de graça para os seus comentário.

Ele vê no Nelson um grande cara, em outras circunstâncias, até o genro perfeito, mas ele culpa o Nelson por um erro dele, fez isso para se safar, como primeira reação, e depois que construiu essa ideia foi e é impossível descontruir. Fazer isso significa assumir a sua culpa, coisa que ele fará só lá no último episódio. Até lá, vai manter sua fama de mau. Por isso que vejo o personagem bem caricato, está aí, todo estereotipado, mas o grande desafio teu aqui, França, é dar essa humanidade para ele mesmo, ele sendo o tempo todo esse chato-mau humorado. E fazer ele se relacionar, mesmo chato-mau humorado, com certa bondade com o Nelson e com a Pilar e, até, com o neto que ele não suporta.

O Rocco é um boa vida. A leitura me mostrou um Rocco bastante interessante, insinuante, de voz aveludada. Esse é o caminho. Pensei que ele é o cara que ganha a vida da bocha e de pequenos “golpes”. Conheci alguns jogadores de bocha profissionais quando os times de Carlos Barbosa disputavam campeonato, eram todos uns galãs de rodoviária”. Acho que o Rocco é um pouco isso. Os pequenos golpes que ele aplica são legais, mas não 100% morais. Uns dez anos pra cá ele percebeu a procura das pessoas por antiguidades, então ele começou a viajar pelas grotas da região e comprar bicicletas Monaretas antigas por dez reais dos colonos para reforma-las e vende-las por dois mil reais para os filhos da classe média alta da capital. Ele faz isso com tudo, latas velhas de ervilha e Nescau, móveis antigos que os colonos estão prestes a rachar pra fazer lenha pro inverno, carros velhos e abandonados, etc. Por um lado, é um trabalho digno e de certa forma, até importante pois preserva essas raridades, por outro lado, ele engana os colonos na cara dura, pois sabe que vai faturar muito em cima. Embora a profissão dele não apareça na série, vejo aqui uma forma dele ficar mais claro na tua cabeça, Cris. Rocco acorda cedo, praticamente madruga, pedala até umas oito horas, toma um banho, um café reforçado, talvez até faça amor com a Claudia (sim a Claudia é mais feliz com o Rocco do que foi com o Nelson, não porque um é melhor que outro, mas porque a Claudia e o Rocco combinam), pega seu carro e sai pelo interior a trabalho, faz isso só até o meio-dia. Depois do almoço ele dorme até as três, vai no clube onde se dedica ao esporte, a bocha. Final do dia ele pedala de novo.

É um cara sedutor, tem esse jeitão do mau, mas ele é do bem. Esta sempre com um óculos ray-ban que ele usa quase como disfarce, sempre que conversa com alguém olha por cima dos óculos, cuidando para que ninguém o ouça, ele é dissimulado, preocupado que o que fala, talvez, “possa ser usado contra ele no tribunal”. Ele fez um semestre de direito em Caxias, largou o curso, mas o curso não largou dele. Usa camisas de gola abertas até o peito e dobradas nas mangas, calças justas, sapato bico-fino.

O Rocco não odeia o Nelson, mas percebe que o Nelson tem aquele jeito de poucos amigos e que o Nelson se afeta com as brincadeiras dele, então não perde oportunidade pra alfinetar o ex-marido da Claudia. E claro, tem também a rivalidade entre as duas cidades, que na verdade, nos dias de hoje, já se dissipou, mas para a velha guarda, manter esse folclore é essencial para a própria sobrevivência deles.

Não por nada que Sereno do Sul é uma cidade de prédios velhos, parada no tempo e Nova Serração uma cidade mais moderna. Sereno do Sul está no meio dos morros, quase escondida e Nova Serração está no alto do morro, as torres da sua igreja são vistas “até de Farroupilha”, ou seja, a primeira respira essa deprê, esse isolamento, enquanto a segunda é quase um pavão, sempre se vangloriando da luz que Deus lhe dá. O Rocco é um pouco isso, consequência dessa luz, pelo que ela trás de bom, mas também de ruim.

A Cláudia, pode-se dizer, fez uma boa troca. O Nelson não é pior ou melhor que o Rocco, mas é fato que ele e a Cláudia não combinavam. Mesmo antes de sofrer o golpe da Pilar, quando o Nelson era um cara mais extrovertido, mais vivaz, mais alegre, era uma alegria advinda de uma personalidade mais contida. Diferente da Cláudia que sempre fora espalhafatosa, exagerada, do tipo “gostosona da cidade”, que usa roupas coloridas e está sempre mascando chiclete. Quase uma adolescente, ou melhor, uma adolescente que esqueceu de crescer, esqueceu que passou a fase. Cláudia já fez várias plásticas, levantou aqui, diminuiu ali, aumentou lá, também se preocupa em fazer exercícios e também adora a luz de Nova Serração, gosta do palco, do glamour, de chamar a atenção. Logicamente, adora quando o Rocco aperta ou da tapinhas na sua bunda em pleno centro da cidade, por isso ela e ele combinaram tão bem e, talvez por isso, associado com uma ingenuidade quase infantil, ela consegue não guardar mágoa do Nelson. Ficou puta na época, sim, chorou, se decepcionou, mas com o passar do tempo e a sintonia que encontrou com o Rocco, ela deixou de lado um possível ódio que poderia existir entre ela e Nelson e, hoje, leva isso tudo na boa. O que não significa que ela não dê suas alfinetadas no Nelson quando pode, mas por ser burrinha, quase sempre recebe uma resposta a altura. No entanto, ela odeia a Pilar e sempre que vê a Pilar ou ouve falar da prefeita da cidade vizinha, ela fecha o semblante, fica puta, cospe o chiclete (símbolo da sua “infantilidade”) e para de falar.

O Fred é um bundão. Tem todo o direito e justificativa para ser como é, afinal, quando criança viu o pai dando um pé na bunda da mãe e isso, de certa forma, caiu como uma negação do pai a toda a família. Como se ele tivesse sido abandonado pelo pai. Com isso, cresceu cultivando esse ódio, esse rancor, pelo pai e pela cidade onde nasceu, uma vez que ela se confunde com o pai. E, por outro lado, foi educado pelo Rocco, que não é pai, mas é tipo um tio legal que a tudo permite. A mão vive em outro planeta, a figura masculina é um personagem dissimulado, insinuante, legal, mas também golpista, por tudo isso, o Fred se transformou nesse pequeno monstro. Esse é o Fred antes da série, no entanto, o processo de transformação do Fred é justamente o de se reaproximar da cidade natal, do pai e dos valores de família. Ele não vai passar a amar o pai e a negar o padrasto por causa disso, pois ele vê o Rocco como um cara legal, mas vai sim aprender a ver o pai como um ser humano, imperfeito, mas bondoso, que apanhou da vida e que ele, como filho, pode ajudar a iluminar um pouco a vida do Nelson. Essa transformação é sutil e quase não aparece, quanto aparece, deixa o espectador na duvida se ela ocorre ou não. No mais, podemos construir juntos algumas características do Fred.

Laura, durante um  tempo fiquei me perguntando quem é essa Laura. Porque uma menina bonita, jovial, inteligente está presa aquela cidade, cuidando do avô catético. Não haveria uma mãe ou um pai, filhos do Pelé da Bocha, para cuidar dele? Não haveria um tio, uma tia? Por que ela ficou lá? Cheguei a pensar que é meio que uma obrigação, que a forçou a ficar em Sereno do Sul e, estaria aí a contrariedade da personagem. No entanto, acho que não é por aí. Acho que ela realmente gosta do avô e, apesar dele parecer meio demente frente os demais, com ela ele ainda conversa, se relaciona, conta histórias. E pensei que o grande elo entre eles pode ser a bocha e a grande frustração dela não é ter que ficar presa em Sereno do Sul, mas sim não poder jogar bocha porque a sociedade é machista. Nisso até se poderia criar alguma certa admiração com as suecas, sei lá..., mas por tudo isso ela tem esse jeito meio moleca, quase guri, mas sedutora ao mesmo tempo. É isso que permite que ela, uma menina, use termos como “caga” com tanta naturalidade. Uma menina do interior teria certo constrangimento em falar “caga”, cagão, etc... a não ser que essa guria fosse especial, diferente, um pouco fora dos padrões locais. Então me parece que se pensarmos Patrizzia como uma menina que gostaria de jogar bocha mas isso não lhe foi permitido por ser mulher, ao mesmo tempo que temos um conflito interno, temos nessa “crise” o diferencial que permite a construção de um personagem autêntico, quase uma mini-Pilar, sem papas na língua. Frustrada por uma lado, mas forte e humana por outro.

Em construção. Mas é um ser difícil, filho de uma mãe super-protetora que até certa altura da vida teve a mãe fulltime presente na vida dele e, de repente, se viu “abandonado” em função do cargo de prefeita da Pilar. As figuras masculinas da sua vida são um pai fraco e alienado e um avô que não vai com a cara dele e faz questão de demonstrar isso. 




RESPOSTA DE NELSON DINIZ

Acho bem importante esse diálogo. Talvez devesse marcar mesmo essa transformação do Nelson, mais jovem, vigoroso, corajoso, destemido e um sujeito, atualmente, redimido com a sua condição, um pouco frustrado por não ter dado saltos maiores. Nem na carreira, talvez por receio, nem como pessoa, talvez por covardia. Uma expectativa que ficou só na intenção, sem concretizar. Um pouco também a condição das pessoas que permanecem no buraco onde nasceram. Sonham a vida toda que um dia virá o salto para fora daquele universo, sem tornar isso em ações concretas, mas se deixando trair pelo próprio destino, permanecendo, reduzindo a sua iniciativa e se entregando a uma vida cômoda e de poucos voos. O referencial do  Moonrise Kingdom é ótimo. Aliás esse filme não mereceu o publico que deve. Um dos melhores que assisti nos últimos anos. Entendo o que você diz. E acho um bom caminho. Claro que no centro disso podemos trabalhar nuances, pequenos detalhes onde podemos identificar a reação concreta do Nelson, mostrada claramente aos outros, mas ao mesmo tempo seu raciocínio, guardado em segredo. Tipo: esse cara não é só isso que estamos vendo, tem muito mais lá dentro, mas ele não mostra. Isso é também uma coisa boa de trabalhar.
Grande abraço. 




RESPOSTA DO DIRETOR PARA NELSON

Acho que estamos olhando para o Nelson com os mesmos olhos. Infelizmente vamos ter que cortar alguma coisa de roteiro, pois eles estão impraticáveis e por isso, talvez, caia os flashbacks. Tanto eu quanto o Leo estamos tentando cortar outras passagens dos roteiros para manter alguma coisa do passado do Nelson, pois consideramos, e pelo visto tu também, importante essa marcação do Nelson antes e depois da decepção amorosa com a Pilar. No entanto, mesmo que caiam os flashbacks, acho que podemos pensar o Nelson dessa forma, como uma característica extra-diegética do próprio personagem. Talvez essa marcação não apareça tão claramente na série, mas vamos pensar ela internamente ao personagem. 

RESPOSTA DE LAURA

Vou te escrever o que eu tinha imaginado, por cima, antes de ler o que tu escreveu sobre a Patrizzia. Imaginei que talvez esse  apego pelo avô teria sido por algum conflito com os pais, em que o Pelé da Bocha ficou do lado dela e, por isso, ela teria se apegado tanto ele, um elo que foi reforçado pelo medo de perdê-lo depois que ele começou a ficar “caquético”.

Talvez o conflito tenha sido justamente por ela não ser uma menina tradicional, por não ter modos de princesinha, não querer debutar e essas frescuras todas. Enfim, por ela ter atitude pra dizer o que ela quer, que foi o que tu imaginou também, né? Essa coisa de uma menina querer jogar bocha em uma cidade com pouquíssimos habitantes pode ser motivo pra vergonha pros pais. Acho que o que tu colocou da bocha se encaixa super bem nesse conflito. A bocha poderia ter sido tanto a causa da rebeldia (por ela não poder jogar) quanto consequência (eles queriam que ela fosse menininha, então ela pegou algo de menino – o mais próximo da realidade dela era a bocha – e se “encarnou” naquilo, meio que para provocar, mesmo que de maneira inconsciente. Para testar limites.)

E será que ela gosta de Sereno do Sul ou ela quer ir para a capital? Será que ela não vai somente por que os pais não a apoiam e ela não tem como se sustentar ou ela gosta da cidade do interior? Pensei nisso por que conheço uma mulher de uns 25 anos que mora em Caçapava do Sul e achei a Patrizzia parecida com ela em algumas questões. Ela fala alto, critica, é cheia de atitude, mas ODIOU o Rio de Janeiro. Disse que não moraria nunca em uma cidade grande. Que é muito stress, muita gente (e ela não é nada calma). Que prefere a cidadezinha dela, mesmo com todos os defeitos. Mas acho que a Patrizzia quer muito ir pra faculdade, isso é certo. Até pra ter independência dos pais, ficando ou não no futuro em Sereno do Sul. Imagino ela fazendo faculdade de Ciências ou outra da área de exatas. Exatas por que ela não gosta de frescuras, ou tá certo ou não tá!
Aguardo tuas considerações!! Um beijo! 

RESPOSTA DO DIRETOR PARA LAURA

Legal Laura, acho que o ponto o principal a gente fechou, o fato dela ser diferente na sua cidade e ter a bocha como o potencializador dessa diferença. E até porque ela é diferente que é inevitável que ela vai sair de sereno do sul cedo ou tarde, talvez isso já esteja a caminho, talvez ela até já saiba disso, já tenha passado no vestibular, sei lá e é uma questão de tempo, de terminar as ferias, por exemplo, para que ela vá mesmo para a capital. 

Não acho que ela não goste de sereno, pelo contrário, acho que ela até curte essa possibilidade de chocar a cidade com o jeito diferente dela. na cidade grande ela vai deixar de ser tão "diferente" para ser mais uma na multidão. então acho que ela gosta da cidade mas também quer provar voos maiores, no entanto, vamos dizer que ela está justamente nesse momento de sair da cidade, isso por si só é um fato que pode colaborar muito na  construção do personagem. quer dizer, um pouco de duvida, um pouco de medo, um pouco de excitação, um pouco nostalgia antecipada, saudade, enfim, vários sentimentos que podem colaborar para com a profusão de sensibilidades da Patrizzia. Ora feliz, ora brava, ora sentimental, ora irônica, etc.... O que tu achas? E sobre os pais, onde eles estão?

SEGUNDA RESPOSTA DE LAURA PARA O DIRETOR

Acho que os pais estão em Sereno do Sul. Se eles não estivessem, por mais que a Patrizzia tenha esses conflitos com eles, teria ido junto. Acho que o conflito não é TÃO GRAVE a ponto de os pais se mudarem e ela ficar (por que afinal, além de ela por si querer se mudar, ela ia ficar lá com quem? 
Por que eles não foram ao campeonato de bocha e por que não cuidam do Pelé da Bocha? Como a gente já concordou, eles têm uma cabeça um pouco "fechada", até pode ser por que são naturais de Sereno. Já que não admitem de jeito nenhum que a Patrizzia jogue bocha, só de ela estar perto desse universo novamente (por que ela teve que parar, a cidade é machista e não houve jeito de ela continuar, será?) eles não gostam, talvez pensem até na vergonha que passaram diante da cidade (cidade do interior sabe tudo de todos) e estar naquele ambiente só relembraria o episódio.
Por eles não cuidarem do Pelé talvez seja por que além de ele ter ficado do lado da Patrizzia, o desentendimento poderia ter vindo antes. Algo mais grave, briga de adultos. Talvez ele não gostasse do pai da Patrizzia (Imagino o Pelé pai da mãe da Pati)? Mais um motivo pra não comparecerem ao campeonato.

RESPOSTA DE JOÃO FRANÇA

Legal Boca, super legais os raciocínios propostos. A tal ponto que, por enquanto, não tenho muito a acrescentar. Já tenho bastante no que pensar só com os desafios que tu propõe para o meu personagem e as conexões com os outros. Na virada final do Ítalo parece residir o maior dilema de criação, sustentação e definição do que eu chamaria de "camadas" da interpretação que vai ser adotada. Legal. Logo veremos o quanto eu conseguirei te dar de material em cena.

O mau humor e amargura ranzinza talvez o tornem engraçado, carismático. Mas temos a culpa subterrânea que vai estar ali. Não sabemos o quanto e quando. Até agora tem me ocorrido que nas falas (vozes, inflexões) estarão mais manifestados o amargor e mau humor, enquanto que nos silêncios (em gestos e nos olhos) vai aparecer a culpa. Mas são conjecturas. Veremos. Grande abraço. França 


RESPOSTA DO DIRETOR PARA JOÃO FRANÇA

Pois é, na verdade me perguntei e te perguntei, se eles estariam vivos... ela poderia morar com um tio em Sereno do Sul... enfim. Mas aí já acho que vai muito além. Já estamos bem do jeito que estamos, já temos uma personagem mais concreto e aprofundado. Agora é aparar as arestas e tu começares a trazer essas nuances para ela.









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