sexta-feira, 5 de julho de 2013

Concepção



Parte 10

Referências
 
Na primeira leitura de mesa que realizamos na casa do Leo Garcia a atriz Patrícia Sosso me perguntou se o roteiro não tinha algo a ver com Wes Anderson. Achei engraçado ela perguntar isso pois o cineasta texano sempre foi uma forte referencia do Leo Garcia. Eu sabia disso. Mas a Patrícia não e isso me deixou interessado em levar adiante uma proposta estética que se aproximasse do uso dos contrastes de cores e texturas que o Wes Anderson explora em seus filmes. A ideia era trabalhar esse contraste a partir dos elementos constituintes da estética da Serra. Os tradicionais tons de azul, verde e rosa que o povo de lá pinta suas casas. Os objetos sacros que permeiam quase todos os ambientes domésticos daquela região.









As roupas estampadas que vestem as senhoras “italianas” que vemos nas esquinas dessas pequenas cidades a fofocar em dialeto vêneto. As texturas das casas construídas com aquele tipo de madeira de encaixe, muito utilizada antigamente na região toda. Enfim, uma quantidade enorme de elementos estéticos que eu gostaria de ver na série em função do contraste. Mas não o contraste por si só e sim, um contraste tão esquizofrênico que pudesse harmonizar justamente a partir da sua total incapacidade de diálogo. Esses elementos, juntos, constituiriam uma estética kitsch que ajudaria a criar o conceito central da série que trata, justamente, sobre o conflito entre o antigo e moderno, o atraso e progresso, a ascensão ao poder versus a simplicidade cotidiana.

Referência do figurino de Pilar.


Essa construção imagética parecia buscar respaldo no trabalho de direção de arte desenvolvido pelo Wes Anderson em sua obra e, por isso, mesmo que em tom de brincadeira, falávamos em “estética Wes Anderson da Serra”. No entanto, percebe-se claramente na região essa tendência o que, de certa forma, garantiu um certo tom de veracidade a uma arte que parecia, num primeiro momento, forçada. Justamente pelo contrário, tais elementos encontravam-se presentes já em quase todas as locações cabendo a equipe do Bernardo Zortea “apenas” equilibrar um pouco os elementos.





Essa necessidade de discutir, mesmo que nas entrelinhas ou sutilmente, a questão do desejo pelo progresso versus a estagnação local é cara a mim por diversas razões. Primeiro, porque Santa Tereza é uma cidade tombada pelo IPHAN como patrimônio cultural e arquitetônico. Uma vez tombada, a cidade, dentro dos limites dessa determinação, não pode mais operar transformações que alterem o seu desenho. Assim, é impossível a partir de agora demolir um casa antiga para construção de um prédio de quatro pavimentos revestido por vidro espelhado, por exemplo. Esse erro se perpetuou por toda a região, uma vez pujante financeiramente mas, infelizmente, carente de amor próprio pela sua própria história. A minha cidade, Carlos Barbosa, é um exemplo regional de uma cidade que perdeu a identidade com sua própria origem. O dinheiro chegou, a casa velha foi demolida e no seu lugar se construiu uma casa “moderna”, sem identidade alguma. Da arquitetura antiga de Carlos Barbosa resta apenas o prédio do Café Brasil e a Estação Ferroviária, esta, inclusive, esteve a um detalhe de ser transformada em estacionamento ainda nos anos 1980.

Esse pensamento fez e faz parte da cultura local. O velho não presta e precisa dar lugar ao novo. O velho, uma casa colonial construída há 100 anos é substituída por uma construção de alvenaria que nem ao menos garante conforto térmico aos seus moradores. No entanto, é nova e é isso que importa. Essa prática é apenas um exemplo que se repete e se reflete em diversas áreas, o que ajuda, inclusive, a explicar a desvalorização que esse povo dá as artes e a cultura em geral enquanto supervaloriza o poder aquisitivo, conjugando sempre o verbo ter sem se dar conta dos equívocos cometidos em função disso. Para corroborar todo esse pensamento tive o cuidado de construir aos poucos, e junto com cada integrante da equipe, uma concepção fílmica que traduzisse um pouco dessa discussão. Os personagens que usam sempre o mesmo figurino, com exceção da prefeita, as suas características pessoais, os cenários, tudo, de alguma forma, foi pensando para transmitir um pouco desse pensamento ao espectador. E através da comédia, que é o gênero que mais permite a crítica, pois esta vem disfarçada na sua intrínseca ironia. Vamos ver no final se conseguimos alcançar aquilo que imaginamos lá no início.

Enquanto a série está em processo de montagem, e até o momento ainda não vi o primeiro corte sequer, deixo para você leitor que até aqui veio, os primeiros tratamentos dos roteiros dos quatro episódios. Lembrando que os mesmos foram reduzidos, foram adaptados, foram retrabalhando para entrarem melhor no nosso orçamento real. Mesmo assim, uma excelente leitura e, depois de a série pronta e indo ao ar, uma ferramenta única para, junto com esse texto, poder realizar uma reflexão profunda sobre o processo de produção de Bocheiros.

Por enquanto, obrigado pela atenção e espero que todo esse trabalho ajude outras produções que estejam vindo por aí. Nem que a nossa colaboração seja justamente chamar a atenção para os erros cometidos. Arrivederti.  

Equipe da série.

Nenhum comentário:

Postar um comentário