quarta-feira, 26 de junho de 2013

O projeto aprovado

Parte 4

Foi com muita ousadia que apresentamos um projeto nos limites do orçamento do edital. Desde sempre temos como filosofia utilizar os recursos de cada edital que entramos 100% no projeto, o máximo possível. Sabemos que não vamos enriquecer fazendo cinema no Rio Grande do Sul, logo, que empreguemos o dinheiro nas produções, melhorando o máximo o nível das mesmas. Mil reais a mais de cachê pode ser bom a curto prazo, mas se perde rapidamente, enquanto que, se aplicado no filme, pode fazer toda a diferença em uma cena ou situação específica. Foi por isso que conseguimos viabilizar essa série, pois cada centavo do prêmio de pouco menos de 200 mil reais, menos ainda impostos, foi aplicado na mesma. Primeiramente na equipe, depois na produção, na arte, na fotografia e, principalmente, no elenco. Mesmo apostando nessa filosofia de trabalho, foi necessário reorçar o projeto após vencermos o edital e redimensioná-lo para uma realidade de produção atual. Os roteiros foram retrabalhados pela equipe de roteiristas, diminuindo algumas cenas, simplificando outras, mas sem perder a essência da série.

Mesmo com a redução dos roteiros, estava claro para mim que os mesmos deveriam sofrer adaptações na complexidade de várias cenas, e a melhor forma de realizar isso sem perder conteúdo seria trabalhando a linguagem do seriado. Por exemplo, cenas de desfile das delegações de bocha e cenas de festas de comemoração e lançamento do Campeonato Mundial de Bochas foram reduzidas ao máximo, transformando, na decupagem, momentos específicos de tais cenas em um jogo de portrairs. Então, em vez de se realizar um grande desfile na rua principal da cidade, algo que ficaria muito legal em Santa Tereza, mas somente se tivéssemos tempo e dinheiro ou, pelo menos, uma dessas condições, transformamos a cena em uma sequencia de apresentações de cada delegação para a câmera, quebrando a quarta parede e assumindo essa relação dos personagens com o espectador.

Linguagem e concepção: a quebra da quarta parede
Isso solucionou algumas questões de ordem de cronograma e orçamento, mas criou outro problema de linguagem que deveria ser solucionado para não corrermos o risco de o espectador entender tal opção como um erro. Por isso, a quebra da quarta parede – para o leitor leigo, é quando o personagem olha diretamente para a câmera, quase como num ato de provocação para com o espectador acostumado a sua condição voyeur, protegido e cômodo em sua poltrona – precisou ocorrer em outros momentos. Também, por outro lado, não poderia parecer que na séria ocorria uma carnavalização do “olhar para a câmera”. Foi então que percebi que o Percival, personagem do ator Thiago Prade, poderia me ser útil para trazer à história esse elemento perigoso de ser trabalhado na televisão e no cinema sem, no entanto, parecer gratuito. O Percival é um personagem especial dentro da trama e que, aos poucos, foi crescendo mais do que estava previsto no roteiro. Uma espécie de agitador da cidade, filho da prefeita Pilar, vivida pela atriz Fernanda Carvalho Leite e que namora, demonstra sentimentos humanos de amor e afeto, uma boneca inflável. Mais que isso, Percival, por ser diferente, quase uma aberração, é também uma vítima daquela sociedade. Percival é mal compreendido até pela própria mãe, pelo avô e pelo pai, que no caso mal contracena com o filho. Por tudo isso, Percival também é, em parte, um rebelde, um intransigente e em uma boa análise, um espelho daquela sociedade esquizofrênica de Sereno do Sul. Que por sua vez, é um espelho da nossa própria sociedade.

Por esse motivo, me pareceu justo que o Percival fosse o intransigente que olha para a câmera, que choca o público por assim o fazer, mas que também não deixa de ser um porta-voz dessa busca de cumplicidade com o espectador, justificando o emprego da quebra da quarta parede na série, que surgiu, num primeiro momento, por uma necessidade meramente organizacional, mas que se transformou em algo carregado de muito significado. Assim, pensei que além de apenas olhar para a câmera, denunciando ao espectador sua compreensão maior sobre os fatos que ocorriam em Sereno do Sul (os loucos são aqueles que realmente percebem o mundo), e sua consequente cumplicidade com o espectador, pedi ao ator Thiago Prade que desse um texto para a câmera, justamente quando o seu personagem é injustiçado pela equipe de bochas de Sereno do Sul, que com a chegada do Fred, o dispensa sem cerimônia alguma. O meu espanto ocorreu quando pedi para o Thiago dar esse texto para a câmera, entendendo que com isso estaria dando ao ator uma chance de ele crescer ainda mais com o seu personagem, mas para ele a situação o incomodou. Talvez tenha ocorrido uma falta de comunicação entre eu e ele, quando eu deveria ter explicado os meus motivos pelos quais o personagem do Percival tomasse tal liberdade. O Thiago realmente não gostou da ideia, mas o fato é que a cena ficou ainda melhor pois se percebe no olhar do ator o constrangimento do Percival em falar para o espectador. Nesse constrangimento está expressado o quanto o Percival está triste e perturbado pelo fato de os seus colegas de time simplesmente o dispensarem em função do Fred, que joga melhor que ele.

Com tudo isso, me pareceu que a escolha da quebra da quarta parede foi uma decisão acertada para economizar tempo e dinheiro, vencer o cronograma extremamente apertado, solucionar um problema de falta de recursos para cenografar cenas tão grandiosas para o nosso orçamento e, de quebra, construir um significado extremamente forte para a série a partir de um personagem que, num primeiro olhar, estava sendo subutilizado.



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