quarta-feira, 26 de junho de 2013

Nota de intenção do diretor

Parte 3

Bocheiros é uma série que se utiliza do humor para dialogar com um público abrangente. As principais referencias de direção da série Bocheiros são alguns trabalhos do Núcleo de Produção do diretor Guel Arraes, da TV Globo o qual, há anos, consegue atingir um amplo público de televisão através de uma narrativa ágil que se fundamenta em diálogos inteligentes e atuações que dialogam com o teatro popular sem, no entanto, abrir mão da crítica social. Não é por nada que os trabalhos do Núcleo Guel Arraes são reconhecidos como as primeiras obras da TV Globo a obterem respaldo da crítica especializada. Obras como Auto da Compadecida (Guel Arraes), O Bem Amado (Guel Arraes), Clandestinos (João Falcão) e Decamerão – a comedia do século (Jorge Furtado) são referencias positivas para Bocheiros, seja pelo formato de produção, linguagem ou apropriação de elementos culturais locais universalizando-os.

A TVE é uma televisão educativa, diferenciada, que pode e deve aprofundar questionamentos os quais a televisão comercial muitas vezes peca por não fazer. No entanto, as características do meio televisivo seguem inerentes às emissoras culturais e educativas tanto quanto às emissoras comerciais. Por isso, a linguagem operada deve ser dinâmica, ágil, calcada no diálogo ritmado para, assim, satisfazer as aspirações de um público televisivo contemporâneo.

O fato de ser gravada em duas cidades interioranas, trazendo para a narrativa a figuração local e provocando o convívio entre atores e cidadãos durante as gravações, trará para a série uma naturalidade sobre a representação estereotipada, inserindo texto, representação e cenário em um universo verossímil para a trama sem, no entanto, deixar de falar com seriedade sobre as relações humanas. O apoio das cidades de Santa Tereza e Monte Belo do Sul permitem pensarmos as mesmas como um grande cenário real, por onde personagens transitarão com naturalidade incorporando a arquitetura histórica na narrativa.

Embora seja uma série contemporânea, que ocorre em 2012, a idéia é que os elementos constitutivos do passado e do presente se misturem, causando a sensação de uma cidade que realmente parou no tempo. A arquitetura do final do século XIX e inicio do século XX, os figurinos aproximando modas ultrapassadas com elementos contemporâneos, os ofícios como ferreiro e barbeiro – praticamente extintos nas grandes cidades – convivendo com jovens ligados em seus smartphones, os ambiente como os antigos armazéns de secos e molhados, os carros antigos e modernos, tudo isso se aproximando de forma harmoniosa na busca de um conceito kitsch para aquele universo único.

A italianidade, mas também a brasilidade estarão presentes através da comida, do vocabulário, dos gestos e dos traços étnicos, reproduzindo um pouco do que é a própria região que muitas vezes sofre uma crise de identidade que mistura nacionalidade e cultura em um mesmo caldeirão.

Por tudo isso, a fotografia trabalhará com um conceito naturalista, trazendo assim unidade e consonância aos diversos elementos e operando uma construção de luz que não cause estranhamento e sim busque o dialogo com espectador. Uma fotografia que comunique, junto com a mise-en-scene que tudo que parece estranho aos olhos do espectador, na verdade é verossímil dentro da narrativa diegética.

Com esses elementos bem construídos, temos certeza que a série Bocheiros não apenas divertirá o espectador, mas também discutirá questões existenciais inerentes ao ser humano e sua relação com o ambiente que o circunda. Além disso, Bocheiros será representativo para uma fração importante da constituição cultural do Rio Grande do Sul, apresentando a colônia italiana do Estado que está presente em toda a Serra Gaúcha, além da região norte do Estado e, inclusive, oeste de Santa Catarina, de uma forma original e inédita. Tudo isso, certamente, colaborará também para com o turismo da região, uma vez que leva às telas duas pequenas cidades da Serra que ainda não são amplamente divulgadas dentro dos roteiros turísticos da região apesar das suas potencialidades naturais, culturais e históricas.  

Referências:Auto da Compadecida (Guel Arraes), O Bem Amado (Guel Arraes), Clandestinos (João Falcão) e Decamerão – a comedia do século (Jorge Furtado)










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