sexta-feira, 28 de junho de 2013

Linguagem e concepção

Parte 5

O orçamento define a estética

É importante perceber como a concepção da obra caminha de braços dados com o que o orçamento permite. Às vezes abrindo mão, às vezes cedendo, mas sempre trabalhando juntos, lado a lado. Se um for contra o outro, o resultado da obra será catastrófico. Ou seja, se tentarmos fazer um filme de um milhão de reais com um orçamento de 200 mil, certamente o resultado final ficará pobre, claramente equivocado e, de sobra, haverá um rombo no orçamento do projeto. Por isso, a ideia de trabalhar planos abertos, por exemplo, que nos permitia ganhar a cena mais facilmente por não estarmos engessando demasiadamente os atores em planos fechados ou closes, o que até seria mais sensato a se fazer, lembrando que a obra seria para a televisão, era também uma questão de concepção que já aparecia lá na justificativa do projeto. 

Isso porque a ideia original era trabalhar com uma linguagem mais teatral, permitindo que os atores trouxessem mais da linguagem corporal para cena, brincassem com os estereótipos através de um certo exagero representado pela projeção do corpo em cena, o que, por sua vez, permitiria diálogos mais longos, improvisação por parte deles e, consequentemente, mais conteúdo à obra. Para que isso funcionasse, entretanto, era preciso que as cenas fossem gravadas em planos abertos, o que exigia recuo de câmera, luz aérea em muitos casos, mas “diminuindo” o cenário pois como já se disse anteriormente, não tínhamos tempo ou dinheiro para cenografar grandes espaços. E isso sabíamos desde o início. 


O Bruno Polidoro, diretor de fotografia do projeto, resolveu isso muito bem com balões de luz, criando ao mesmo tempo uma luz teatral, não dura, mas sim em camadas, deixando o ator em destaque num primeiro plano, uma segunda camada de “escuro” para, enfim, iluminar o fundo de forma mais pontuada permitindo fugir do erro de engrandecer demais o cenário, mas ao mesmo tempo, valorizando tudo que a cenografia foi capaz de criar com competência e criatividade. Isso permitiu, por exemplo, que o diretor de arte Bernardo Zortea pudesse construir boa parte do cenário do Bar do Nino com rolos de pape higiênico deitados, pois em comunhão com a concepção de luz, isso criava uma textura interessante sem, no entanto, revelar a simplicidade do cenário limitada pelo baixo orçamento. 

A escolha das lentes também colaborou para que conseguíssemos obter esse resultado. Gravando com duas câmera simultaneamente, a exemplo de muitos projetos realizados para a televisão, uma Canon 7d e uma Canon 5d Mark III, o Bruno optou por, num primeiro momento, usarmos uma lente aberta, 16-135mm, abertura 2.8, para captar os planos mais abertos e, assim, ganharmos a cena no plano aberto. Com a segunda câmera, usávamos uma 70-200mm, abertura 2.8, que utilizávamos para realizar planos mais fechados, mesmo que de longe, uma vez que ela tem esse recurso. 

Assim, enquanto estávamos, de certa forma, condicionados ao enquadramento aberto da outra câmera, garantíamos, também, alguns planos fechados. Ambas lentes bastante luminosas, respondiam bem ao padrão de luz montado pelo Bruno nas cenas. Esse padrão foi seguido em quase todas as cenas da série. Começava-se dessa forma e, num segundo momento, quando a cena já estava garantida, trocávamos a lente 16-135mm por uma 50mm fixa usada para fazer um plano conjunto da cena enquanto a outra câmera seguia tentando ganhar nos planos mais fechados.




quarta-feira, 26 de junho de 2013

O projeto aprovado

Parte 4

Foi com muita ousadia que apresentamos um projeto nos limites do orçamento do edital. Desde sempre temos como filosofia utilizar os recursos de cada edital que entramos 100% no projeto, o máximo possível. Sabemos que não vamos enriquecer fazendo cinema no Rio Grande do Sul, logo, que empreguemos o dinheiro nas produções, melhorando o máximo o nível das mesmas. Mil reais a mais de cachê pode ser bom a curto prazo, mas se perde rapidamente, enquanto que, se aplicado no filme, pode fazer toda a diferença em uma cena ou situação específica. Foi por isso que conseguimos viabilizar essa série, pois cada centavo do prêmio de pouco menos de 200 mil reais, menos ainda impostos, foi aplicado na mesma. Primeiramente na equipe, depois na produção, na arte, na fotografia e, principalmente, no elenco. Mesmo apostando nessa filosofia de trabalho, foi necessário reorçar o projeto após vencermos o edital e redimensioná-lo para uma realidade de produção atual. Os roteiros foram retrabalhados pela equipe de roteiristas, diminuindo algumas cenas, simplificando outras, mas sem perder a essência da série.

Mesmo com a redução dos roteiros, estava claro para mim que os mesmos deveriam sofrer adaptações na complexidade de várias cenas, e a melhor forma de realizar isso sem perder conteúdo seria trabalhando a linguagem do seriado. Por exemplo, cenas de desfile das delegações de bocha e cenas de festas de comemoração e lançamento do Campeonato Mundial de Bochas foram reduzidas ao máximo, transformando, na decupagem, momentos específicos de tais cenas em um jogo de portrairs. Então, em vez de se realizar um grande desfile na rua principal da cidade, algo que ficaria muito legal em Santa Tereza, mas somente se tivéssemos tempo e dinheiro ou, pelo menos, uma dessas condições, transformamos a cena em uma sequencia de apresentações de cada delegação para a câmera, quebrando a quarta parede e assumindo essa relação dos personagens com o espectador.

Linguagem e concepção: a quebra da quarta parede
Isso solucionou algumas questões de ordem de cronograma e orçamento, mas criou outro problema de linguagem que deveria ser solucionado para não corrermos o risco de o espectador entender tal opção como um erro. Por isso, a quebra da quarta parede – para o leitor leigo, é quando o personagem olha diretamente para a câmera, quase como num ato de provocação para com o espectador acostumado a sua condição voyeur, protegido e cômodo em sua poltrona – precisou ocorrer em outros momentos. Também, por outro lado, não poderia parecer que na séria ocorria uma carnavalização do “olhar para a câmera”. Foi então que percebi que o Percival, personagem do ator Thiago Prade, poderia me ser útil para trazer à história esse elemento perigoso de ser trabalhado na televisão e no cinema sem, no entanto, parecer gratuito. O Percival é um personagem especial dentro da trama e que, aos poucos, foi crescendo mais do que estava previsto no roteiro. Uma espécie de agitador da cidade, filho da prefeita Pilar, vivida pela atriz Fernanda Carvalho Leite e que namora, demonstra sentimentos humanos de amor e afeto, uma boneca inflável. Mais que isso, Percival, por ser diferente, quase uma aberração, é também uma vítima daquela sociedade. Percival é mal compreendido até pela própria mãe, pelo avô e pelo pai, que no caso mal contracena com o filho. Por tudo isso, Percival também é, em parte, um rebelde, um intransigente e em uma boa análise, um espelho daquela sociedade esquizofrênica de Sereno do Sul. Que por sua vez, é um espelho da nossa própria sociedade.

Por esse motivo, me pareceu justo que o Percival fosse o intransigente que olha para a câmera, que choca o público por assim o fazer, mas que também não deixa de ser um porta-voz dessa busca de cumplicidade com o espectador, justificando o emprego da quebra da quarta parede na série, que surgiu, num primeiro momento, por uma necessidade meramente organizacional, mas que se transformou em algo carregado de muito significado. Assim, pensei que além de apenas olhar para a câmera, denunciando ao espectador sua compreensão maior sobre os fatos que ocorriam em Sereno do Sul (os loucos são aqueles que realmente percebem o mundo), e sua consequente cumplicidade com o espectador, pedi ao ator Thiago Prade que desse um texto para a câmera, justamente quando o seu personagem é injustiçado pela equipe de bochas de Sereno do Sul, que com a chegada do Fred, o dispensa sem cerimônia alguma. O meu espanto ocorreu quando pedi para o Thiago dar esse texto para a câmera, entendendo que com isso estaria dando ao ator uma chance de ele crescer ainda mais com o seu personagem, mas para ele a situação o incomodou. Talvez tenha ocorrido uma falta de comunicação entre eu e ele, quando eu deveria ter explicado os meus motivos pelos quais o personagem do Percival tomasse tal liberdade. O Thiago realmente não gostou da ideia, mas o fato é que a cena ficou ainda melhor pois se percebe no olhar do ator o constrangimento do Percival em falar para o espectador. Nesse constrangimento está expressado o quanto o Percival está triste e perturbado pelo fato de os seus colegas de time simplesmente o dispensarem em função do Fred, que joga melhor que ele.

Com tudo isso, me pareceu que a escolha da quebra da quarta parede foi uma decisão acertada para economizar tempo e dinheiro, vencer o cronograma extremamente apertado, solucionar um problema de falta de recursos para cenografar cenas tão grandiosas para o nosso orçamento e, de quebra, construir um significado extremamente forte para a série a partir de um personagem que, num primeiro olhar, estava sendo subutilizado.



Nota de intenção do diretor

Parte 3

Bocheiros é uma série que se utiliza do humor para dialogar com um público abrangente. As principais referencias de direção da série Bocheiros são alguns trabalhos do Núcleo de Produção do diretor Guel Arraes, da TV Globo o qual, há anos, consegue atingir um amplo público de televisão através de uma narrativa ágil que se fundamenta em diálogos inteligentes e atuações que dialogam com o teatro popular sem, no entanto, abrir mão da crítica social. Não é por nada que os trabalhos do Núcleo Guel Arraes são reconhecidos como as primeiras obras da TV Globo a obterem respaldo da crítica especializada. Obras como Auto da Compadecida (Guel Arraes), O Bem Amado (Guel Arraes), Clandestinos (João Falcão) e Decamerão – a comedia do século (Jorge Furtado) são referencias positivas para Bocheiros, seja pelo formato de produção, linguagem ou apropriação de elementos culturais locais universalizando-os.

A TVE é uma televisão educativa, diferenciada, que pode e deve aprofundar questionamentos os quais a televisão comercial muitas vezes peca por não fazer. No entanto, as características do meio televisivo seguem inerentes às emissoras culturais e educativas tanto quanto às emissoras comerciais. Por isso, a linguagem operada deve ser dinâmica, ágil, calcada no diálogo ritmado para, assim, satisfazer as aspirações de um público televisivo contemporâneo.

O fato de ser gravada em duas cidades interioranas, trazendo para a narrativa a figuração local e provocando o convívio entre atores e cidadãos durante as gravações, trará para a série uma naturalidade sobre a representação estereotipada, inserindo texto, representação e cenário em um universo verossímil para a trama sem, no entanto, deixar de falar com seriedade sobre as relações humanas. O apoio das cidades de Santa Tereza e Monte Belo do Sul permitem pensarmos as mesmas como um grande cenário real, por onde personagens transitarão com naturalidade incorporando a arquitetura histórica na narrativa.

Embora seja uma série contemporânea, que ocorre em 2012, a idéia é que os elementos constitutivos do passado e do presente se misturem, causando a sensação de uma cidade que realmente parou no tempo. A arquitetura do final do século XIX e inicio do século XX, os figurinos aproximando modas ultrapassadas com elementos contemporâneos, os ofícios como ferreiro e barbeiro – praticamente extintos nas grandes cidades – convivendo com jovens ligados em seus smartphones, os ambiente como os antigos armazéns de secos e molhados, os carros antigos e modernos, tudo isso se aproximando de forma harmoniosa na busca de um conceito kitsch para aquele universo único.

A italianidade, mas também a brasilidade estarão presentes através da comida, do vocabulário, dos gestos e dos traços étnicos, reproduzindo um pouco do que é a própria região que muitas vezes sofre uma crise de identidade que mistura nacionalidade e cultura em um mesmo caldeirão.

Por tudo isso, a fotografia trabalhará com um conceito naturalista, trazendo assim unidade e consonância aos diversos elementos e operando uma construção de luz que não cause estranhamento e sim busque o dialogo com espectador. Uma fotografia que comunique, junto com a mise-en-scene que tudo que parece estranho aos olhos do espectador, na verdade é verossímil dentro da narrativa diegética.

Com esses elementos bem construídos, temos certeza que a série Bocheiros não apenas divertirá o espectador, mas também discutirá questões existenciais inerentes ao ser humano e sua relação com o ambiente que o circunda. Além disso, Bocheiros será representativo para uma fração importante da constituição cultural do Rio Grande do Sul, apresentando a colônia italiana do Estado que está presente em toda a Serra Gaúcha, além da região norte do Estado e, inclusive, oeste de Santa Catarina, de uma forma original e inédita. Tudo isso, certamente, colaborará também para com o turismo da região, uma vez que leva às telas duas pequenas cidades da Serra que ainda não são amplamente divulgadas dentro dos roteiros turísticos da região apesar das suas potencialidades naturais, culturais e históricas.  

Referências:Auto da Compadecida (Guel Arraes), O Bem Amado (Guel Arraes), Clandestinos (João Falcão) e Decamerão – a comedia do século (Jorge Furtado)










terça-feira, 25 de junho de 2013

O projeto

Parte 2

Bocheiros é uma série de ficção que se passa na fictícia cidade colonizada por italianos, Sereno do Sul, localizada na Serra Gaúcha. Sereno do Sul, pacata cidade com 2.036 habitantes, tem uma rivalidade “secular” com a vizinha Nova Serração, cuja população é de 2.035 habitantes. A primeira, localizada às margens do Rio das Antas, foi um importante porto para a região até os anos de 1970 quando perdeu sua importância com a abertura da Estrada Geral, cujo traçado da rodovia, inesperadamente, abençoou a comunidade de Nova Serração. Assim, ao se emancipar de Sereno do Sul, Nova Serração acabou ficando mais próxima da estrada o que contribuiu para que a cidade logo crescesse e se modernizasse. Enquanto isso ocorria, a população de Sereno do Sul, praticamente amordaçada, apenas acompanhou com os olhos a modernização da rival enquanto via sua economia encolher mais e mais.

Por isso, a prefeita de Sereno do Sul moveu montanhas para trazer à cidade o Mundial Interclubes de Bochas, importante torneio esportivo que servirá para colocar novamente Sereno do Sul na rota dos grandes eventos internacionais, mostrando ao mundo, e à rival Nova Serração, o poder político e econômico da cidade-mãe. No entanto, o torneio servirá também para abrir velhas feridas em parte da população, reacendendo disputas entre seus moradores e revelando segredos “milenares” os quais tem o poder de desequilibrar a frágil harmonia local.

As cidades de Santa Tereza e Monte Belo do Sul, localizadas no Vale dos Vinhedos, na Serra Gaúcha, serão as locações dessa série, sendo que a primeira será Sereno do Sul enquanto que a segunda será Nova Serração. Assim, além de valorizar as comunidades locais e suas histórias, a série servirá para destacar a região que tem enorme potencial turístico, abordando em diversos níveis a história local, seu povo e sua cultura.

Uma vez que conta com um preservado casario eclético remanescente do período da colonização italiana, quando a cidade era um importante porto de escoamento da produção das colônias para Porto Alegre via Rio das Antas/Taquari, Santa Tereza, recentemente, foi tombada pelo IPHAN como Patrimônio Arquitetônico e Cultural Nacional por ainda apresentar características de vila do início do século passado. Santa Tereza e Monte Belo do Sul, a exemplo das cidades fictícias criadas para essa série, também desenvolveram ao longo dos anos uma relação de rivalidade sadia que colabora para com o folclore das cidades. Os habitantes, tanto de uma quanto da outra, dizem que tal rivalidade já existia na Itália e atravessou o oceano no bojo dos imigrantes para perpetuar-se aqui no sul do Brasil.

Bocheiros justamente pretende, através da ficção, destacar as características do povo italiano, reconhecido mundialmente pelo seu comportamento ambivalente que pode variar da imensa alegria à mais profunda irritação em questão de segundos. Através das atuações e da figuração dos habitantes de Santa Tereza e Monte Belo do Sul, a série pretende trabalhar essas características inerentes à cultura italiana para falar de relações humanas, discutindo a inveja, a raiva, a traição, o amor, enfim, todos esses elementos que nos tornam seres complexos, imperfeitos, sensíveis, humanos.

O pano de fundo dessa história é o Mundial Interclubes de Bocha. Esse esporte, a bocha, tem forte relação com a região e é muito praticado em todos os países onde ocorreu imigração italiana como Austrália, Argentina, Brasil e Nova Zelândia. No entanto, para aqueles que não tem relação direta com a cultura italiana, a bocha é tido como um esporte chato, desinteressante e reducionista quando é justamente o contrário. O oitavo campeonato mundial que ocorreu em Carlos Barbosa, no ano passado, teve a participação de 15 clubes de 14 países diferentes, reunindo em torno das canchas mais de cinco mil pessoas em quatro dias de competição. Percebe-se pela narrativa da matéria publicada na Revista da Bocha que o esporte realmente não condiz com a fama de monótono. “O time italiano foi impecável durante as mais de três horas de partida contra o Três Lagoas. A torcida da equipe de Garibaldi compareceu em massa ao Ginásio Santo Antônio de Castro para apoiar, fez sua parte, mas no final só restou aplaudir e reconhecer a superioridade de Mirko Savoretti e seus companheiros. Itália 2 a 0, parciais de 15 X 5 e um 15 x 0 arrasador”. Ou seja, mesmo com um placar tão elástico, a partida foi difícil, nervosa e emocionante.

Por isso, optamos por trabalhar a bocha como pano de fundo dessa série. Justamente para brincar e desconstruir a visão do público em geral para com o esporte oriundo da cultura daquela região. No entanto, a série, por se tratar de humor, tende a exagerar nos fatos, destacando a importância do esporte e dos desportistas como se o mesmo se tratasse de uma Copa do Mundo de futebol.

Bocheiros é um projeto que nasce da aproximação de jovens profissionais com outros um tanto mais experientes. Os roteiristas Luciano Braga, Marcela Bordin, Thiago Duarte e Tomas Fleck participaram do  projeto Alfaitaria, da Coelho Voador, contemplado no FAC do ano passado. Esse projeto da Coelho Voador consistia em reunir grupos de jovens aspirantes a roteiristas para escreverem, sob a orientação do roteirista Leo Gracia, duas séries televisivas. A partir desse contato entre o roteirista Leo Garcia com os jovens participantes da Alfaiataria, nasceu a idéia de desenvolver o argumento dessa série que, agora, aqui estamos apresentando. Bocheiros, apesar de não ter relação direta com a Alfaitaria de Roteiros, deriva do encontro proporcionado pelo projeto da Coelho Voador comprovando assim que a aproximação e o contato são imprescindíveis para o desenvolvimento de novos projetos. Leo Garcia também é o roteirista da aclamada série Sapore d’Italia, realizada pela Epifania Filmes para a RBS TV.

Dirigida por Boca Migotto e Rafael Ferretti, com Produção de Mariana Müller e Fotografia de Bruno Polidoro, Sapore d’Italia foi a primeira série de ficção da RBS TV gravada no exterior, conseqüência da ousadia e coragem dos realizadores em apostar em um produto diferenciado com locações no norte da Itália. Ou seja, é uma equipe que já trabalha junto, que já desenvolveu uma série para TV dialogando com a temática italiana e teve enorme repercussão positiva atingindo mais de 5 milhões de espectadores através da exibição dos 5 programas no Rio Grande do Sul, além da exibição internacional da mesma através da Globo Internacional para os cinco continentes onde a mesma é transmitida. Ou seja, a Epifania Filmes gostaria de repetir o sucesso, oportunizando aos novos talentos um espaço para desenvolverem seu trabalho.

As cidades da região sabem do potencial que o audiovisual tem para divulgarem suas qualidades e, além disso, conhecem e reconhecem o trabalho da Epifania Filmes, produtora que desenvolve inúmeros documentário na região, ajudando a preservar, assim, a cultura local. É por tais motivos que tanto a Prefeitura de Santa Tereza como de Monte Belo do Sul, através de documentos anexados a esse projeto, demonstram seu interesse em apoiar as gravações de Bocheiros e, desde já, assim como toda a equipe da Epifania Filmes, torcem pela sua seleção.








Pelo diretor da série, Boca Migotto.

*A cada dia, um texto referente a série será postado.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Bocheiros

Parte 1

BOCHEIROS

As intenções desse texto são várias. Acredito que a principal de todas seja compartilhar com o público em geral um pouco do processo de produção do projeto intitulado Bocheiros, um dos vencedores do FAC Pólo Audiovisual 2012, filmado no mês de junho de 2012 na cidade de Santa Tereza, na Serra Gaúcha. Outro motivo que justifique o trabalho de colocar "no papel" um pouco do que foi o processo de realização da série é refletir sobre a mesma. 

Escrever demanda pensar, pensar nos faz rememorar os passos dados, pensar nos passos dados desde o ano passado até nesse momento, quando a série está, já, em processo de edição, significa refletir sobre tudo isso. Por último, que este texto seja útil para aqueles que estão aprendendo a produzir audiovisual no Brasil, sejam eles estudantes de cinema ou não. Por isso, decidi incorporar a esta reflexão os textos que fizeram parte do projeto inscrito no edital. Se essas observações ajudarem um único estudante interessado em um case de produção, o esforço terá tido razão de ser. Então, vamos lá.

O PROJETO – OS PARCEIROS

O projeto Bocheiros nasceu de uma parceria já antiga com a produtora de roteiros Coelho Voador. A Epifania Filmes e a Coelho Voador já haviam se aproximado em várias oportunidades, dentre elas, a principal experiência foi produzir a série Sapore d’Italia, para a RBS TV/Globo.

Sapore d’Italia foi filmada no norte da Itália e na região de Bento Gonçalves, em épocas distintas, caracterizando, claramente, duas fases de captação. Foi durante a segunda fase das gravações da série que acontecia em Bento Gonçalves, quando Leo Garcia, roteirista e proprietário da Coelho Voador, ficou sabendo que o projeto Alfaitaria de Roteiros havia sido contemplado no FAC – Fundo de Apoio a Cultura daquele ano. A Alfaitaria nasceu de uma ideia original do Leo de reunir vários profissionais de cinema para, juntos, pensarem argumentos para filmes e séries de TV. 

A primeira edição ocorreu na base do “amor a camiseta”, ou melhor, do interesse de cada integrante daquela Alfaitaria de desenvolver coletivamente um argumento seu de longa-metragem que já estivesse, de certa forma, em desenvolvimento. Acredito que tenha sido dessa primeira experiência do Leo que surgiu a ideia de inscrever no FAC uma Alfaitaria de Roteiros que fosse remunerada, voltada para jovens roteirista do mercado e estudantes de cinema a fim de desenvolverem argumentos para séries de TV, um gênero que já identificamos como importante para esse novo momento da indústria audiovisual brasileira.

Os argumentos da série Bocheiros não surgiram diretamente da Alfaitaria, mas sim de alguns integrantes do projeto os quais, juntos, decidiram escrever especificamente para o edital do Governo do Estado. Nesse momento. já estava acordado que a Epifania Filmes produziria a série se esta fosse aprovada no edital.

Depois de uma rápida reunião de onde surgiram algumas ideias, foi decidido que abordaríamos o universo da bocha, um esporte bastante praticado no interior do Estado mas totalmente inusitado para a grande maioria das pessoas. Uma vez definido isso, pude indicar que a série se passasse em Santa Tereza, cidade com apenas dois mil habitantes, localizada próxima a Bento Gonçalves e tombada pelo IPHAN recentemente como patrimônio arquitetônico do Brasil.

A bocha é um esporte muito praticado em países como Portugal, Espanha, França e, principalmente, Itália. Essa relação dos italianos com a bocha deve ser muito antiga pois a sua prática, até onde imagino, atravessou o oceano com os imigrantes e veio parar aqui no sul do Brasil. Várias cidades da região italiana do Rio Grande do Sul já sediaram mundiais de bocha. Garibaldi, Passo Fundo, Carlos Barbosa já foram sede e mantem estruturas fixas para a prática do esporte. 
No entanto, apesar de tudo isso, quase ninguém fora da região citada pratica ou praticou a bocha, tido ainda como um esporte de velhos. Da equipe do Bocheiros, eu era um dos poucos que tinha tido alguma experiência com o esporte pois o praticara com o meu pai quando mais jovem. Para os roteiristas, por exemplo, a bocha era algo tão inusitado que lhes foi necessário comprar um livro para aprender um pouco sobre as regras do jogo, assim como frequentar a SOGIPA, onde o avô da nossa amiga e colega de trabalho Iuli Gerbase pratica a bocha com amigos.

Com isso, Leo Garcia e os roteiristas Luciano Braga, Marcela Bordin, Thiago Duarte e Tomas Fleck, se reuniram para dar conta das demandas do edital enquanto, por outro lado, eu, como diretor, me concentrava na argumentação narrativa, justificativa da proposta e ideia geral de concepção enquanto a minha sócia e produtora executiva, Mariana Müller, orçava o projeto e organizava a papelada necessária para a inscrição no edital. Para conhecimento geral, penso que possa ser interessante publicar aqui os textos escritos em defesa do projeto. Assim, antes de dar seguimento a nossa análise sobre o processo de produção da série Bocheiros, fiquem com o texto presente no projeto.

Pelo diretor da série, Boca Migotto.

*A cada dia, um texto referente a série será postado.













*A cada dia, um texto referente a série será postado.