quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Memórias em Sal de Prata


“Memórias em Sal de Prata” é um projeto de documentário que iniciamos há uns três anos. Nasceu como um filme que contaria a história do Seu Parisi, fotógrafo de Veranópolis, na Serra Gaúcha, apaixonado pelo ofício e pela história. Num determinado momento, percebemos que o Seu Parisi dialogaria perfeitamente bem com outro apaixonado pelas artes visuais, o Seu Camillo, projecionista, técnico cinematográfico e cineasta de Canoas, Região Metropolitana de Porto Alegre. Decidimos aproximá-los em um filme.



Este projeto, o “Memórias em Sal de Prata”, resume e reflete bem a minha opção por trabalhar com documentários e a minha preocupação com a preservação da memória através da produção audiovisual. Esses dois homens, detentores de tanto conhecimento que poderia e deveria ser passado adiante, morreram nos últimos dois meses, carregando junto com eles o conhecimento, a memória, as histórias e os saberes que ambos poderiam ter compartilhado com a gente ainda em vida.
Por isso, reunimos alguns amigos e profissionais (o Bruno Polidoro, o João Gabriel de Queiróz, o Fernando Basso e o Drégus de Oliveira) e decidimos gravar este documentário. Todos aceitaram realizar o projeto sem remuneração, e só assim foi possível gravarmos as entrevistas com eles. Foi assim, na base do improviso, que conseguimos realizar um curta-metragem.

Desejo uma boa viagem ao Seu Parisi e ao Seu Camillo, que eles se reúnam lá no céu com outros homens dignos da nossa memória.




quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Entrevistados segunda etapa de gravações - Bom Fim

A segunda etapa de gravações do documentário "O BOM FIM NOS ANOS 80 - O RASTRO DA CONTRACULTURA" (título provisório) contou com mais uma leva de grandes entrevistados! Veja quem participou desta segunda etapa:



O produtor musical Carlos Garcia, o Miranda; O professor Carlos Winckler; A professora e produtora musical Paola Oliveira; O radialista Mauro Borba; O publicitário Emílio Chagas; a cineasta Martha Biavaschi; o diretor de arte e dono do bar Ocidente Fiapo barth; a hostess Cikuta Castanheiro.


O cineasta Beto Souza; o músico Márcio Petracco; o músico Nei Lisboa; o Toninho do escaler (bar que marcou história no Bom Fim); o cineasta Jorge Furtado; o cineasta André Sittoni; os integrantes Cláudio Heinz, Julia barth e Heron Heinz da banda Os Replicantes; o jornalista e escritor Eduardo Bueno, o Peninha.



O jornalista Marcelo ferla; o publicitário Adriano Luz; o dono da locadora Zil Vídeo Hilton Zilberknop; o diretor de teatro Paulo Flores; a cinesta Biah Werther; o jornalista Milton Gerson; o jornalista e crítico musical Juarez Fonseca. 

As entrevistas foram gravadas no bairro Bom Fim em locais como o Parque Farroupilha, Café do Brique, Araújo Vianna, Clarita, Piperita, Ocidente, Zil Vídeo, Maomé, Petit Dalí, bar Ocidente, La Cafeteria, El Basco Loco e Café Fon Fon.







terça-feira, 15 de outubro de 2013

Entrevistados Primeira Etapa de Gravações

A primeira etapa de filmagens do documentário "O BOM FIM NOS ANOS 80 - O RASTRO DA CONTRACULTURA" foi muito produtiva e recheada de boas histórias. Tivemos vários depoimentos falando sobre a produção cultural que rolou na década de 80 pelo bairro, a música, o teatro, o cinema, a produção cinematográfica e também foram surgindo os personagens que fizeram do Bom Fim um bairro muito importante e que colaborou para o surgimento da cultura contemporânea em Porto Alegre. Veja quem foram os entrevistados desta primeira fase:



O professor, jornalista e escritor Juremir Machado; o jornalista e escritor Paulo César Teixeira; a jornalista Mary Mezzari; a diretora regional do PSTU Vera Guasso, o músico e professor Frank Jorge; a cabelereira Necca Wortmann.



O músico Egisto Dal Santo; o multimídia Claudinho Pereira; o mestre Lucio Fernandes Pedroso; o músico Julio Reny; o cineasta Otto Guerra;  os cineastas Ana Azevedo e Giba Assis Brasil.



O multimídia Moah Sousa; o cineasta e professor Glênio Póvoas; a super frequentadora da lancheria Ana Paula Rocha; o joalheiro Zé Giralt; o cineasta Gerbase; a cineasta Luciana Tomasi; o jornalista Cristiano Zanella; o jornalista Elmar Bones.

A maior parte das entrevistas foram gravadas pelo bairro Bom Fim: no Parque Farroupilha, no Café Vulp, no restaurante Suprem, no bar e restaurante Mariu’s, no Baden Café, no bar Odessa, na Lancheria do Parque, na Palavraria, no Café Bristol e no bar e restaurante Zero de Conduta.  

As bandas que marcaram a década de 80 no Bom Fim

Os anos 80 foram muito importantes para a música nacional. É nesta época que surgiram importantes bandas nas mais diversas regiões do Brasil, algumas delas ainda hoje ativas e conhecidas pelo grande público. 

Em Porto Alegre, foi no bairro Bom Fim o berço desta grande efervescência musical. Era no “Bonfa” que as pessoas se encontravam e se conheciam, formando assim as bandas,  em sua maioria de rock and roll. Era no bairro, também, que ficavam os lugares onde estas bandas tocavam: Ocidente, Araújo Vianna, Escaler, Vermelho 23. 

Outro fator que contribuiu para a formação e divulgação dessas bandas no bairro Bom Fim foi a Rádio Ipanema, que ficava na José Bonifácio. Com essa conjunção de fatores muitas bandas bacanas surgiram naquela época como estas listadas aqui abaixo. 

Para ouvir um som e entrar no clima do Bom Fim dos anos 80 é só clicar no nome da banda.






















quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Pelos bares do Bom Fim...

O Bom Fim teve muitos bares que marcaram a noite porto alegrense e o próprio bairro. Na década de 70, na esquina maldita, havia o Copa 70, o Marius, o Estudantil e o Alaska, bares estes frequentados por estudantes e militantes políticos, em sua maioria. Já na década de 80, com a transição da boemia para o “baixo bom fim”, que ficava entre a Rua Felipe Camarão e a Rua General João Teles, abriram inúmeros bares que tinham, em cada um deles, diferentes tipos de frequentadores. Era a época das tribos. Existiam os punks, os hippies, os darks, os headbangers, os skaters, os new waves, os heavy metals.


O mapa dos bares que fizeram história no bairro Bom Fim

Lola
Ficava na Avenida Osvaldo Aranha pertinho da esquina com a João Teles. De tarde era uma lancheria e de noite virara um agitado bar. Seus maiores frequentadores eram os punks. Era o lugar com cerveja mais barata dos bares do Bom Fim daquela época.

Lancheria Lola

Ocidente
Um dos poucos sobreviventes da década de 80. O Ocidente, na época, era frequentado pela galera do teatro. Rolava muitas peças de teatro e festas com música brasileira. O bar Ocidente, como afirma o dono Fiapo Barth, “entrou para a noite com a ideia de montar uma agenda noturna na cidade”, coisa que antes não acontecia. As noites eram sempre iguais. Para mudar isso a cada dia da semana havia alguma atração, peça de teatro ou show rolando no bar. No início o Ocidente era para poucos, a entrada não era para qualquer um, muitos contam que os punks muitas vezes entravam pela janela. O bar Ocidente continua aberto e virou patrimônio da cidade, sendo frequentado hoje em dia pelos mais variados grupos.

O Bar Ocidente na década de 80

Bocaccio
O bar Bocaccio abriu em 1985 e ficava embaixo do bar Ocidente. Chamava muito a atenção, pois ficava passando vídeos em VHS do The Cure, Stones entre outros. A maioria dos frequentadores eram os darks, e new waves. Era um barzinho pequeno, mas sua decoração agradava muito quem o frequentava.

Bar João
O bar do João virou um clássico no Bom Fim. Era um extenso bar com várias prateleiras recheadas de cachaças, algumas bem peculiares como a de tijolo ou a de morcego. No fundo tinha algumas mesas de sinuca profissional e bem no meio um palco que rolava sempre a mesma banda. Era muito frequentado pela galera que curtia um bom metal. O mais engraçado é que de manhã e a tarde o bar era frequentado por velhinhos judeus que ali se reuniam para conversar sobre o bairro e o mundo, tomando seu cafezinho matinal. O Bar João fechou nos anos 90 deixando muita saudade.


As famosas cachaças do bar João

Lancheria Redenção
Ficava na Osvaldo ao lado do Bar João. Poucas pessoas comentam sobre ele e, apesar de não ser um dos nomes mais famosos, era frequentado por todas as tribos. Um lugar mais modesto.

Lancheria do Parque
A famosa e resistente Lancheria do Parque continua aberta e é sucesso até hoje. Antigamente era frequentada por políticos e intelectuais, que ali debatiam e bebiam muita cerveja. De dia a população do Bom Fim passava ali para comer um lanche, uma batida, um suco bem gelado e natural ou almoçar. A Lancheria sempre teve esse viés de ser um local de alimentação, um restaurante, mesmo que a noite na década de 80 rolava muita bebida e cigarros, no final todo mundo acabava comendo alguma coisa e voltava pra casa de barriga cheia!

A Lancheria do Parque hoje

Fedor
O Fedor é um dos bares mais antigos dos citados. Seu fim foi trágico, acabou incendiando, muitos dizem que foi uma empada que explodiu! O Fedor, como o nome já diz, era realmente um lugar sujo e fedorento, mas que nunca gostou de um belo pé sujo?! No início fora frequentado pelos judeus do bairro e logo depois, todas as tribos davam uma passadinha nele ou no início ou no final da noite. Era o lugar da época que nunca fechava.

Luar Luar
Era o bar que ficava no mercado do Bom Fim. Era um bar bem grande que enchia mais aos domingos. A galera ia lá depois de um belo passeio na redenção para curtir aquele final de tarde. Seus frequentadores vinham de todos os bairros de POA e aproveitam para tomar aquela ceva no seu dia de folga.

Escaler
O Escaler, outro bar que ficou famoso na época, era um bar pequeno, mas que tinha um palco onde rolava muitos shows das bandas que despontavam na década de 80. Ficava no mercado Bom Fim virado para a redenção, lugar especial para todo o Porto Alegrense. Ali se tinha liberdade para fumar um e escutar um som sem ser incomodado. Seus frequentadores eram os hippies, punks, e todas as demais, já que ali rolavam todas as bandas da época.

O Escaler nos anos 80

São estes os bares que marcaram o Bom Fim da década de 80, cada um com a sua história, cada um com a sua importância. E foram neles que foi surgindo tudo o que ia rolando neste momento, uma nova banda, um novo grupo, um novo filme, uma nova peça de teatro, uma nova identidade. Hoje em dia o Bom Fim mudou mas continua com esta característica: um bairro que é reduto de novas ideias e fonte de inspiração de novos projetos. 


terça-feira, 24 de setembro de 2013

A Esquina Maldita – Onde tudo começou

Na década de 60, surge próximo a faculdade da UFRGS a Esquina Maldita. Um reduto formado por quatro bares: Copa 70, Alaska, Estudantil e, um pouco tardio, o Mariu’s. Os frequentadores, na sua maioria, eram estudantes da UFRGS, políticos, escritores, poetas e o pessoal do teatro.

Na esquina da Osvaldo Aranha com a Rua Sarmento Leite - esta Esquina Maldita, como ficou conhecida –, prosperou nas décadas de 1960 e 1970. Um gueto boêmio com vida intelectual inquieta e independente, cujos protagonistas foram testemunhas do surgimento de uma cultura urbana contemporânea em Porto Alegre.


Acervo pessoal Diaci Ribeiro - Reprodução livro Esquina Maldita, de Paulo César Teixeira

"As duas vertentes que ali predominaram – a dos que pretendiam transformar o mundo e a dos que propunham revolucionar a própria vida – produziram uma boemia com ares existencialistas, que oscilava entre o proselitismo e a porra-louquice. Esse traço distingue com nitidez a Esquina Maldita dos demais pontos boêmios da cidade em sua época."


E é do final deste reduto que nasce o Bom Fim que trataremos no filme. O chamado baixo Bom Fim, que teve uma nova formação cultural, uma nova juventude e uma nova história! Neste segundo momento do Bom Fim surge um novo momento. Era o de produzir. Ali se produziu muitos filmes, se montou muitas bandas, se pensou política e cultura, mas também gerou muita polêmica em função das bebidas e das drogas.


segunda-feira, 16 de setembro de 2013

O meu Bom Fim é esse. Qual é o seu?


Eu tinha treze anos de idade quando um amigo me encontrou na rua e disse que havia comprado um disco dos Replicantes e que eu tinha que ouvir. Lembro do local onde isso ocorreu. Era uma sexta-feira santa e estávamos em frente a igreja da minha cidade, Carlos Barbosa. Fomos até a casa dele, o disco era “Papel de Mau”, terceiro LP da banda. 

Na segunda-feira, na primeira hora do dia, fui até a loja de discos que ficava do outro lado da rua, quase em frente a minha casa, e comprei o disco. Eu não tenho irmãos, meus pais não tinham cultura musical, nós não tínhamos aparelho de som em casa. Quando penso em música antes da adolescência, nada de específico me vem a mente. Eu não tinha referencial musical algum, por isso, lembro muito pouco do que ouvia antes de conhecer esse disco. Mas sei de cor cada disco que  comprei depois do “Papel de Mau”.

LP Replicantes - Papel de Mau

Meu amigo, aquele da sexta-feira santa, não evoluiu muito sua relação com a música, aos poucos perdemos contato, frequentamos turmas diferentes, ele ficou por lá, eu vim pra Porto, ele virou engenheiro e eu comunicador. Nem sei se ele ainda mora em Carlos Barbosa hoje. Meus pais, com pena de mim, logo depois que eu comprei o disco, me deram de presente um três-em-um, que era como se chamavam os aparelhos de som naquela época, pois tinham rádio, toca-discos e rodavam também fita-cassete. Gravei muita música fita-cassete direto da rádio, porque os discos não existiam, não chegavam na minha cidade e eu não tinha dinheiro para comprar.

O aparelho de som acabou sendo meu passaporte para a partir daí eu comprar mais e mais discos. Juntava cada centavo para esse fim. Algumas compras, por causa da falta de referência musical, eram equivocadas. Outras, valeram cada centavo. Acho que foi por causa da minha paixão pela música que eu decidi trabalhar cedo. Já com quatorze anos era empacotador de um supermercado da cidade. Estudava de manhã, trabalhava de tarde e gastava todo meu salário em discos. Tenho todos eles ainda comigo. Cada um me traz a lembrança da sua compra. Lembro de ir muito para Bento Gonçalves, sozinho, de carona, para comprar discos. Tinha uma loja muito legal lá, onde lembro de comprar Sex Pistols, Inocentes e The Clash. na lembrança, também, ficam as idas para Porto Alegre, sozinho, de ônibus, e sem a minha mãe saber, para comprar discos ou fitas gravadas na antiga Megaforce. Saia de Carlos Barbosa com o ônibus da uma, às três horas já estava em Porto, comprava os discos na Avenida Independência e na Rua Garibaldi e às cinco corria para a rodoviária. Mais ou menos sete horas chegava em Barbosa, era horário de verão e ao chegar em casa a janta estava pronta. “Onde tu foi a tarde toda”, perguntava a mãe. “Por aí”, respondia eu.






Durante um tempo da minha vida a música preencheu um espaço fundamental. Ao ponto de eu já ser chamado para tocar nas festas de garagem. Carregava meus discos e passava a noite botando som nas festas, com dois três-em-um, baixava o volume de um e aumentava do outro e, assim, não precisava cortar o som da festa. Lembro que haviam rixas entre turmas mas eu tinha livre trânsito entre todas elas pois era o DJ da galera. As bandas mais pedidas eram TNT, Cascavelettes, Garotos da Rua, Engenheiros do Havai. Também rolava muito The Cure, Smiths, Led Zeppelin, não tinha um estilo, grau de importância, gênero, para nós era tudo música boa, era tudo rock. Lembro que Replicantes não era muito apreciada pelas meninas, mas num determinado momento da festa eu tocava Surfista Calhorda. As batidas das baquetas e os acordes de guitarra eram o sinal de que “quem casou, casou, quem não casou esquece e quebra tudo”. Aí vinha Inocentes, Dead Kennedy`s, Sex Pistols. Minha história como DJ não durou muito. Meu pai me dizia que tudo era bobagem. Comprar discos não me levaria a lugar nenhum, era só jogar dinheiro fora. De tanto falar, durante um tempo, acreditei e parei de comprar. Muito tempo depois conversamos sobre isso e ele me confidenciou que estava errado, pediu desculpas. Desculpas pelo que, né meu pai? Não erramos todos o tempo todo?

O tempo passou e as festas de garagem foram substituídas pelas fugas para a cidade vizinha. Garibaldi tinha o Bar Joe, ambiente que todos nós desejávamos frequentar. Não tínhamos idade para isso, não tínhamos carro, mas os tempos eram outros, também não havia uma fiscalização ostensiva como hoje, não havia violência, não havia maldade e as pessoas davam carona. No Joe tocavam bandas como Barata Oriental, Sangue Sujo, Graforréia Xilarmônica (acho) e Limiar, a grande banda da região, na minha opinião. Tinha outras, óbvio, era a época das bandas de garagem, só em Barbosa tínhamos cinco, seis bandas que ensaiavam aos sábados a tarde e tocavam à noite. Cada turma tinha sua banda, sua garagem,  e promovia sua festa. Em Bento Gonçalves haviam algumas bandas muito boas, quase profissionais. Lembro da Velharia e da Tribo, uma banda blues que até disco já tinha. Bento sempre teve uma relação forte com o Blues. Mas na minha percepção, Limiar era a melhor. Três acordes, bons refrões e atitude de palco. Era o espírito daquilo que ouvíamos na Ipanema FM, do tal rock que nascera no bairro Bom Fim, na capital. Lembro que discutíamos sobre isso, dizíamos que Limiar era tão bom que poderia tocar na rádio, como TNT, Replicantes... só não tocava porque éramos do interior. Não lembro se Limiar tocou na Ipanema, mas fez alguns shows memoráveis no Joe. E o Joe era o nosso Bom Fim, logo, tudo fazia parte da mesma história.

Através da Ipanema ouvíamos histórias desse tal Bom Fim, da Osvaldo Aranha, de um bar chamado Ocidente. Mas havia também um tal Porto de Elis, outro de nome sugestivo, Opinião. No nosso imaginário era tudo a mesma coisa. Em um deles as pessoas subiam nas árvores e entravam pela janela. Acho que era nesse que o EduK fazia shows. Quem era o Eduk? Um maluco que desfilava pela Rua da Praia com uma tampa de privada pendurada no pescoço. Sua pele era toda tatuada no “Glauco Tattoo tatuagens artísticas” e ele cortava o cabelo em um lugar chamado “Scalp”. Tudo soava meio surreal, uma loucura, uma mentira, uma invenção, a mais pura verdade. Sei lá, a lenda era muito boa, a gente contava a lenda por aí, e ainda aumentava.


Banda Defalla - Eduk, Flávio Santos, Biba Meira e Castor Daudt

Era nesse lugar que eu queria morar, mas eu ainda era jovem, muito jovem. Segui frequentando o Bar Joe. Ouvindo a Ipanema, comprando os vinis dos meus amigos que venderam suas coleções para adquirir tudo de novo em uma nova mídia que estava surgindo, um tal CD. Mudei de emprego, saí do supermercado, passei a trabalhar todo o dia numa gráfica. Com o salário maior eu comprei um aparelho de CD. Mas não me desfiz dos vinis. Lembro do dia que finalmente comprei um CD. Era uma manhã de sábado, muito fria, após uma noite de neve. A cidade estava toda branca, quando saí da loja com o aparelho Philips e duas coletâneas, pois a loja só tinha uns dez CDs e os únicos mais ou menos bons eram essas coletâneas da Janis Joplin e do The Doors. Não me estranhem, gosto muito de ambos, mas não gosto de coletâneas.

Muitos CDs vieram depois disso. Também veio o quartel, o vestibular, o fim da inocência, a faculdade de comunicação na Unisinos, a chance de sair de Carlos Barbosa e viver em Porto Alegre. Então, finalmente, reencontrei o Bom Fim que havia visto uma única vez em um show do Camisa de Vênus no Araújo Vianna. Não lembro bem o ano, mas ainda havia o Luar e o Escaler funcionando. O povo todo na rua, ao longo da Osvaldo, e eu, menor de idade, estava indo ver Camisa no Araújo Viana. O Bom Fim que eu cheguei para morar não era mais aquele, já estávamos nos anos 90, vivendo o rescaldo dos anos 80. Lembro do Elo Perdido, do Megazine e, claro, do João. A faculdade passou rápido, vivia no Campus em São Leopoldo, tinha aula de manhã, tarde e noite. Lá ajudei a organizar um ENECOM, mas isso é outro papo.


Osvaldo Aranha na década de 80 (Bar João, Fliperama e Cinema Baltimore)

Em 2001 me mudei para Londres, fiquei lá mais de ano, frequentando muitos lugares como Portobello Road e Candem Town. Esses lugares pareciam o Bom Fim que fazia parte do meu imaginário. Prepotência pouca é bobagem. Quando voltei, já sabendo que trabalharia com audiovisual, inscrevi um projeto no Fumproarte junto com o amigo Marcelo Martins, parceiro da Unisinos. O projeto tratava de um documentário sobre esse Bom Fim que eu não havia vivido, mas desejava muito viver. Um lugar onde as pessoas se encontravam à noite para trocar ideia, onde surgira um pessoal que fazia cinema, que trabalhava com vídeo, que montará bandas de rock, que fizera excursões pelo interior do Estado, que fizera peças de teatro, escrevera livros e poesias. E que então, se tornaram as nossas referências culturais no Rio Grande do Sul.

Durante dez anos inscrevemos esse mesmo projeto em vários editais de fomento a produção audiovisual do Rio Grande do Sul e do Brasil, além de insistir no Fumproarte. Ganhamos o edital só em 2012, dez anos depois da primeira tentativa.

Estamos gravando esse documentário já há algumas semanas, mas só hoje percebi que realmente estávamos, finalmente, fazendo esse filme. Quando o então garoto que colocava som nas festas de garagem da sua pequena cidade estava no ensaio para o show de trinta anos dos Replicantes, a ficha caiu. A banda tocava “Só mais uma chance”, uma das músicas de trabalho daquele primeiro disco que eu comprei lá em Carlos Barbosa. Lá se vão quatorze anos que isso aconteceu. Também lá se vão mais de 30 anos daquele Bom Fim que não vivi, mas que venho resgatando de alguma forma nesse trabalho, pois acredito que foi importante para mim, sim, mas não só. Tenho certeza da importância dessa história para muita gente. Espero estar certo.

PS: Quando penso em punk, lembro do meu amigo Tiarajú. Lembro da gente assistindo Sid And Nancy e pogueando nos shows e festas da Serra. Esse texto é em tua homenagem.


quarta-feira, 28 de agosto de 2013

BOM FIM - PRIMEIROS DEPOIMENTOS


Foram iniciadas as gravações do documentário sobre o bairro Bom Fim, em Porto Alegre.

Com a redemocratizaçao do Brasil, a influência do movimento punk inglês dos anos 70, que aqui no Brasil chega com um certo atraso e a aberutra de inúmeros bares ao longo da avenida Osvaldo Aranha, os jovens porto alegrenses protagonizam um periodo de ebulição cultural sem precedentes no Rio Grande do Sul.

A criação do Bar Ocidente, tradicional reduto cultural de Porto Alegre, da Ipanema FM, a rádio que divulgou todo esse movimento nos anos 80, assim como o surgimento do PT, o lançamento do disco Rock Garagem, marco da produção musical do periodo e o lançamento do filme Deu pra ti anos 70 são alguns dos temas explorados nesse documentário.

A primeira leva de entrevistas foi realizada com o Juremir Machado, Paulo Teixeira, Mary Mezzari, Egisto Dal Santo, Julio Reny, Lucio Fernandes Pedroso, Claudinho Pereira, Otto Guerra, Necca, do Salãozito mais famoso do Bom Fim, e Vera Guasso.

Primeira Claquete do longa.

Se você viveu o período, frequentou a Osvaldo Aranha e tem algo que ajude a contar essa história, como fotografias, filmes, vídeos, e quiser colaborar, a produção aceita qualquer tipo de  material para ilustrar essa história.


quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Voltando aos anos 80 através do Bom Fim


Nesse final de semana a Epifania Filmes inicia as gravações do seu primeiro longa-metragem "O BOM FIM NOS ANOS 80 - O RASTRO DA CONTRACULTURA" - título ainda provisório, já que algumas dicussões vêm sendo levantadas durante a pesquisa, e outras possibilidades vêm surgindo para dar nome a este projeto, o qual tem todo nosso afeto.

É mais um ciclo que se fecha. A ideia do documentário sobre o movimento cultural que aconteceu no bairro Bom Fim, nos anos 1980, nasceu em 2002, quando ao voltar de uma temporada fora do Brasil, o diretor Boca Migotto se aproximou do amigo Marcelo Martins e, juntos, escreveram a primeira versão desse projeto que foi encaminhado ao Fumproarte. O mesmo foi recebido com entusiasmo pelos avaliadores do Fumproarte já no longinquo ano de 2002, o que os deixou motivados a reescreve-lo e encaminha-lo novamente, com a certeza de que executando os pequenos ajustes solicitados, o mesmo seria aprovado com facilidade. 

E lá se foram 10 anos de tentativas. O projeto conhecido simplesmente como BOM FIM foi encaminhado para inúmeros editais e linhas de incentivo, tentativas de viabiliza-lo de diversas formas, o que nunca se concretizou. No ano passado, finalmente, o projeto foi aprovado no Fumproarte e, neste final de semana, iniciamos as gravações dos depoimentos que nos ajudarão a contar essa história.

O Marcelo seguiu seu caminho e largou o cinema pelas letras. Bela escolha, sempre escreveu muito bem. Já a Natália Guasso e o Lucio Fernandes, parceiros do projeto desde o início, praticamente, fizemos questão de convida-los para, agora, trabalharem na sua realização como pesquisadores.

Juntos nessa estão outros parceiros de sempre, a quem devemos muito e com quem trabalhamos com muita satisfação por serem nossos amigos, além de excelentes profissionais: Fernando Basso, Bruno Polidoro, Drégus de Oliveira e Marcelo Santos.

Paola Oliveira, por sua vez, assina a direção musical do longa, que tem lançamento previsto para 2014.

Acompanhem as gravações do documentário através do Blog da Epifania Filmes e do nosso Facebook.




sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Epifania produz vídeos para o Museu da Arena

Começa nesta semana a fase de produção dos vídeos que a Epifania Filmes está realizando para veiculação no Museu da Arena, do Grêmio.

Os vídeos contam fatos curiosos da história do clube. "Com o Grêmio onde o Grêmio Estiver" trata da  criação e composição do hino gremista, "18 vagões" discorre sobre o surgimento da Torcida Organizada Gremista, e "Bombardão", por sua vez, conta a história de um célebre torcedor gremista que viveu dos anos 20 aos anos 50 na Praça da Alfândega.


Fila para pegar o trem para o jogo em Novo Hamburgo. 
A lotação daria origem à primeira Torcida Organizada Tricolor.

Bombardão, torcedor gremista célebre pela presença na Rua da Praia nos Anos 40.

Nas últimas semanas os vídeos foram roteirizados e paralelamente à roteirização a pesquisa vinha sendo realizada. As gravações ocorrerão no próximo final de semana, em Porto Alegre.