quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Sexta-Feira

Um pouco de poesia:

Termina a aula, bato o ponto. Estou sem carro, e em São Leopoldo. Volto de metrô para casa, para Porto Alegre. É sexta-feira, o campus é belo, flores, árvores, wi-fi. Ônibus para chegar na estação? Me pergunto, cá com meus botões, porque o trem não passa mais perto? É sexta-feira, está lotado. São pessoas de bem, pessoas humildes, que dependem do transporte barato, subsidiado ...

pelo governo. Olhares preocupados, rostos cansados. A porta abre, uma mulher entra, fede, coitada, conta uma história, triste, ela foi abandonada. Precisa voltar para Santa Maria, pede esmola, ela também quer voltar para casa. Me pergunto se ela está falando a verdade ou aplicando mais um golpe. Na dúvida dou um real, poderia ser dois, mas e se for um golpe? Noutro não caio. Desço na rodoviária, vou para o Bom Fim. A pé. No centro se vende de tudo, dentro da estação mesmo. Um caixa eletrônico ao lado de uma promoção de calcinhas. Olha o churrasquinho! Tem também cachorro quente. Um churros, talvez? Pastel a um real. Ah, se não tivesse dado para aquela senhora. Um rapaz caminha fumando, fuma enquanto caminha. Outro cospe, no chão, quase sobre mim. Cuidado seu puto, grita o taxista, enquanto quase já me atropela sobre a calçada. Abre o olho na rodoviária, ali muito se assalta. Pego a Garibaldi, linha reta pro Bom Fim. Em poucos minutos, com sorte, sã e salvo. Uma prostituta de peito caído, outra de blusa rasgada conversam enquanto um homem passa a mão na bunda de uma delas, ou seria nas duas? Outro cidadão joga papel no chão, sobre o asfalto irregular, serviço mal feito, certo que foi desvio, de verbas. O papel, vejo agora, era o santinho do candidato a prefeito. Jovem e bem educado. Ao lado das putas um boteco, animado, já cedo a cachaça é a amante certa, enquanto as outras, lá fora, estão muito caras. Um rapaz recicla alumínio, vejam só, cata latinhas do lixo empilhado sobre a calçada. Desço para a rua, olho pro outro lado. Os prédios, belos, antigos, abandonados, em qualquer outro país seriam teatros, casas de cultura, bares bem freqüentados, restaurados. Aqui caem aos poucos, pedaço por pedaço, se esvai o cimento e o passado, uma hora dessas pode até matar um desavisado. Em meio a tanto elemento, tão grotesco quanto, é um playboy que passa, de carro importado, baixa o vidro e joga, quase em cima de mim, seu cigarro. E eu, professor, honesto, estudado, vou pra casa, é sexta-feira, tenho que corrigir trabalho, mas antes compro um vinho barato, de acordo com meu salário, porque ninguém consegue ser otário o tempo todo, estando sempre de cara, amarrada.

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