quinta-feira, 18 de agosto de 2011

OS BASTIDORES DA PRODUÇÃO DE SAPORE D´ITALIA

Antes de começar, seguindo o tradicional método das listas que vocês vão entender ao longo do texto, listo aqui nomes e funções no projeto Sapore, que se repetirão ao longo da minha narrativa, para que possa chamá-los adiante de uma maneira mais informal, a qual estou habituada.

Boca (Migotto, diretor)
Rafa (Ferretti, diretor)
Leo (Garcia, roteirista)
Tombini (Rafael Tombini, ator e produtor executivo)
Poli (Bruno Polidoro, diretor de fotografia)
Basso (Fernando Basso, técnico de som)
Ber (Bernardo Zortéa, diretor de arte)
Tais (Cardoso, figurinista)
Iuli (Gerbase, assistente de direção)
Emiliano (Cunha, assistente de direção)
Chris (Christian Cinetto, produtor)
Marta (Ridolfi, produtora)
Miriam (Marini, atriz)
Artur (José Pinto, ator)

Quando falo da produção da série Sapore d´Italia, é inevitável que me venha em mente o primeiro pensamento quando soube da aprovação do projeto pela RBS. Foi algo mais ou menos assim: “Legal, aprovou, mas e agora?”

Exteriorizo isso porque durante meses ouvi falar da série. Acompanhava de perto as discussões entre o Tombini, o Leo, o Rafa e o Boca sobre essa saga que estavam criando para gravar no exterior e que, para mim, soava como uma grande loucura irrealizável.

Quando foi apresentado o projeto à RBS TV, eu estava em pré do curta “Silêncio”, que dirigi para a série Histórias Curtas da RBS e, naquele momento, estava mais mergulhada na criação do que em questões de produção. Além disso, naquela época atravessava uma fase terrível de indecisão sobre o que faria da minha vida profissional. Depois de muitos anos como assistente de direção e com a certeza de que um dia queria dirigir, passei algum tempo assumindo coordenação de produção e direção de produção de alguns projetos, o que começou a me conquistar. Mas quando o projeto do “Silêncio” foi aprovado, se apresentou para mim a oportunidade de dirigir, que havia deixado de lado já a algum tempo. Ao mesmo tempo que estava empolgada com a experiência, me dividia entre os quereres e questionava muito sobre qual função eu teria mais talento para exercer.

No curta deu tudo certo, gravamos em Marcelino Ramos e gostei da experiência. Gostei também do resultado. Mas não me sentia tão completa como quando produzia. Ficamos sabendo que o projeto da série havia sido aprovado lá em Marcelino Ramos, no penúltimo dia de gravação. Apesar de na época ainda não fazer parte do projeto efetivamente, comemorei junto, pois o projeto já fazia parte de mim.

Fiz o cronograma de produção, sob o olhar atento dos meninos, e apresentamos à RBS. Ficou concluído que em menos de dois meses teríamos que apresentar aquilo que era apenas um argumento em uma série pré-roteirizada, no formato de escaletas, como chamamos. Não deveria, ainda, ter sido criados os diálogos, mas toda a trama deveria estar ali.

Me uni ao grupo na tentativa de ter idéias e pensar como se desenvolveria o enredo. Devo dizer que, apesar do meu gosto pela escrita e da capacidade criativa e humorística, que acredito ter, foram meses difíceis, pois muitas vezes acabava tolindo idéias que surgiam porque já pensava na dificuldade de produção. Acho que em alguns momentos cheguei a atrapalhar esse processo criativo, pois quando apresentada uma idéia nova, levantava a questão de como produzir. Mas aos poucos fui me desvencilhando e percebendo que aquilo que estávamos criando deveria ser o ideal, para que depois cenas e situações fossem cortadas. Foi nesse momento que deixei que viessem as idéias malucas. Algumas  vezes os meninos tinham compromissos e não podiam estar reunidos durante uma tarde toda, e então eu e o Leo nos reunimos para escaletar e ter idéias insanas. Foi assim que surgiu a idéia do Simone ter um irmão gêmeo, da Francesca ser filha do Chefe, tramas novelescas que só dificultariam a produção. De qualquer forma, naquele momento decidi focar na criação e esquecer essa parte árdua que com certeza bateria na minha porta mais tarde.

Durante esse processo, já tínhamos alguns contatos de produção. O  Tombini havia ido para a Itália e havia voltado de lá com alguns contatos que poderiam ser úteis e, além disso, o César Prezzi, presidente do Comitato Vêneto aqui no RS, sempre dava dicas de pessoas que poderiam se disponibilizar a apoiar o projeto.

Depois de apresentadas as escaletas, durante a fase de roteirização, fui chamada para uma reunião na RBS com a Alice Urbim, para falarmos de orçamento. Levei comigo o Tombini, com quem divido a produção executiva, e o Boca. Sentados na salinha de reuniões ao lado dos especiais, falamos um pouco do que esperávamos da produção e, depois de um pré-orçamento elaborado semanas antes por mim, fizemos a proposta do que precisávamos para a realização da série. A Alice, que é uma pessoa que admiro muito pela capacidade de liderança e negociação, apesar de não conviver e trabalhar com ela, não foi fácil. Mas eu também herdei do meu pai o conhecimento pelas finanças e o gosto pelos cálculos, então fechamos em um valor que (acho) era o possível de ser pago, mas também era, dentro do possível, o mínimo necessário para a realização a partir do sistema que estava se configurando. Em um determinado momento da reunião, depois que havíamos determinado o valor da produção, a Alice me olhou nos olhos e me preocupou um pouco, dizendo que era para atentar e “diminuir o circo, pois senão teríamos um estouro de orçamento que ela nem queria estar perto para ver”. Resultado: saí da RBS que nem louca cortando rubricas do orçamento. Não posso deixar de trazer a público que, durante a reunião, enquanto negociávamos, o Tombini, nervoso, me chutava por baixo da mesa e, eu, sem entender nada, seguia negociando questões de impostos e pagamentos diretos para que economizássemos nessa questão. Depois que saímos da reunião perguntei a ele porque me chutava tanto, se eu tinha falado algo que não deveria, e a resposta dele foi que os chutes que ele me dava eram apenas um incentivo para que eu continuasse a negociar e não desistisse tão fácil do que havíamos pensado como o ideal.

Depois dessa reunião, comecei a cortar rubricas. Eu e o Tombini chegamos à conclusão que essa era a única forma de realização e de preservar os cachês que havíamos orçado para os criadores do projeto, que já eram simbólicos. A câmera que os diretores e Poli haviam pensado era a Canon 5D. Ainda tenho os orçamentos de equipamentos de câmera guardados. As câmeras e lentes foram orçadas tantas vezes, com diferentes logísticas e combinações, que tenho pelo menos 16 orçamentos diferentes, nos quais em um as duas câmeras vinham da BH com frete, outro no qual comprávamos uma no Brasil, um no qual camprávamos uma camera 5D e outra 7D por economia e assim por diante. No final das contas, depois de mais de um mês, tomamos uma decisão: seriam duas Canon 7D e quatro lentes, mais os acessórios. Parte do equipamento viria dos EUA, e outra parte iríamos a Rivera buscar. No final das contas compramos alguns itens, que não encontramos em Rivera, no Brasil. Preferimos cobrir o risco de não chegar a tempo pelo frete e pagar um pouco mais (omito aqui a tensão coletiva e o medo de que as câmeras não chegassem ou chegassem com algum problema sem tempo hábil de resolução). Tínhamos a primeira tão sonhada “gordura” no orçamento que tanto almejávamos. Economizamos, pela pesquisa e paciência, com o equipamento. O segundo passo foi definir quantas pessoas iriam e quando iriam à Itália. Vale lembrar que até outubro do ano passado (2010) eu ainda não me incluía na equipe que viajaria à Itália, por questões de orçamento. Preferia ficar na base, economizar um pouco, e ter um diretor de produção italiano.

Nesse mesmo período, conhecemos um italiano, produtor de cinema que mora em Verona e trabalha em Roma, que veio para um trabalho aqui no Brasil e tivemos um encontro para falar do projeto. Convivemos durante três dias e a conclusão que tive é que, para mim, ele era a pessoa que poderia me representar durante as gravações lá. O Tombini, através da Miriam, nossa atriz italiana, já havia contatado e não tinha ainda comentado comigo, uma casa de produção de Padova, a JengaFilm, e convidado o Christian Cinetto para fazer parte do projeto de alguma forma, ainda não definida. Vendo minha empolgação com relação a esse produtor, ele me contou isso depois do italiano voltar para Roma e, nesse momento cometemos o erro de colocar as duas pessoas em contato, pensando que talvez um pudesse assumir a produção no Vêneto e o outro em Roma. Modos e tamanhos de produção diferentes e ideologias diferentes, além do ego que sempre fala mais alto, fizeram com que ficássemos em uma posição delicadíssima. Não poderíamos, por vontade de ambos, dividir a produção. Depois de muita discussão, de pesar todos os prós e contras, flexibilizei e optamos por manter o Christian no projeto, pois ele já havia começado contatos importantes com relação à liberação de locais para gravar e talvez até de apoio financeiro com algumas instituições públicas governamentais, e também pelo fato de que o Tombini já havia falado muito com ele e sentia uma grande confiança no cara. Agradeço muito por isso. Depois de ficar em contato direto com ele as reuniões se tornaram semanais, via Skype. Em pouco tempo já tinha sobre ele a mesma opinião. Confiava no trabalho dele, e estava mais tranquila com relação a nossa escolha.

De qualquer forma, todos juntos decidimos que mesmo com um produtor lá, minha presença seria essencial para cuidar das finanças, pois nenhum membro da equipe teria tempo e paciência para ficar o tempo todo controlando orçamento. Além do mais, eu poderia fazer um misto de funções como cuidar do figurino, maquiar e fazer um tipo de assistência de direção, cuidando para que nada que precisava ser gravado fosse esquecido.

Por fim, compramos, com a ajuda do meu pai, que fez um empréstimo, porque nessa época apenas havíamos recebido uma parcela, que já havia sido gasta com equipamentos, 8 passagens para março, uma data que mudei de última hora. Estava prevista a minha ida e dos diretores para pré produção em janeiro, voltaríamos, e iríamos gravar em fevereiro (pensávamos que essa distância pré x gravação seria a salvação se percebessemos a falta de alguma coisa). Atrasei para março porque via que era pouco tempo para definições antes de ir, e que o forte do inverno seria um inimigo. Iríamos para a pré, eu e os diretores, e ficaríamos direto para a gravação. O restante da equipe (Leo Garcia, Bruno Polidoro, Fernando Basso – técnico de som) e os atores (Rafael Tombini e Artur José Pinto) nos encontraria uma semana depois para começar a gravação. Motivo: economia, sempre. No final das contas foi uma decisão da qual me orgulho muito.

O problema, a partir daí, foram as inúmeras demandas que tínhamos. Fiz muitos cronogramas colocando prazos para resolvermos determinadas questões, e os prazos normalmente não se cumpriam. A burocracia era grande, e muitas vezes perdi o sono por não ter ainda um ator, uma liberação, um orçamento que havia solicitado ao Christian. Hoje percebo que essa situação de atraso não era, de forma alguma, causada por incompetência dele. São apenas dois modos diferentes de trabalho. Os italianos costumam resolver, pelo meu conceito, tudo de última hora, e funciona. Ou seja, sabem da demanda, mas ficam tranquilos porque sabem que é realizável e que não precisa ter pressa. A questão é: quem me conhece sabe do meu senso de imediatismo, da minha irredutividade e do meu transtorno obsessivo-compulsivo. Não preciso dizer que dobrei minhas sessões de terapia por causa disso.

Janeiro de 2011. Nossa situação ainda não era das melhores. O recesso de ano novo na Itália realmente funciona, e voltei a ter contato com o Christian por volta do dia 8, o que fez com que o mês parecesse curto para tantas pendências que ainda tínhamos. Nessa época, tinha no meu desktop um arquivo que se chamava “pendências – itália”. Esse arquivo tinha, quando criado, duas páginas de demandas listadas e que cresciam a cada dia ao invés de diminuir. Além disso, havíamos marcado um teste de elenco em Bento Gonçalves e eu, com a ajuda da Gisele Moro, da Casa das Artes de Bento, estávamos em fase de divulgação do teste.

Com o tempo, as pendências foram diminuindo. Pesquisávamos atores italianos e eu enviava para o Christian para ele checar se era possível e viável. Os que moravam no Vêneto eram os mais prováveis. Os atores de Roma e de outras regiões tinham cachês muito altos e a dificuldade de locomoção para gravar, então eram riscados das possibilidades. O Christian acabou sugerindo atores de Padova, mandava fotos e videos para mim, e os diretores aprovavam. Muitas vezes perdia a paciência com exigências com relação aos atores que não faziam o mínimo sentido, e também por um diretor aprovar e o outro não, o que dificultava muito meu trabalho. Mas aos poucos essas questões foram se dissolvendo dentre outras mais importantes. As locações passaram pelo mesmo processo. Depois de mandarmos uma pasta de referências de cada locação interna, o Christian ia fotografar e mandava fotos dos lugares possíveis. Vale lembrar que aconteceu o óbvio. Em fevereiro, um mês antes de irmos, é que começamos a ter efetivamente as locações e, como a lei de Murphi está sempre presente em produção, locações caíram uma semana antes de embarcarmos para a pré. Além disso, só tínhamos autorização por escrita e timbrada de duas cidades para gravar. Quanto às outras cidades, os responsáveis já estavam informados e já haviam dado o aval, mas não tínhamos em mãos nada oficial. Caos. Além disso, o transporte que tínhamos em Roma e uma das bases onde iríamos ficar caíram também, porque o nosso apoiador em Rovigo, Marco Dillello, viria ao Brasil e não iria estar na Itália na época da gravação. Falei com o Christian e decidimos substituir aquela cidade por outra e nos deslocarmos sempre em 3 carros.

Nessa altura do campeonato a Iuli já havia dividido comigo a vontade que tinha de ir junto e, sabendo que eu não tinha como levar uma pessoa a mais, se ofereceu para pagar sua própria passagem. Cálculos depois, aceitei a proposta pensando que com certeza a verba gasta com mais uma hospedagem em cada lugar, alimentação e transporte valeriam a pena. Eu sabia que não ia me arrepender de termos uma assistente de direção no set. Essencial.

Uma semana antes de ir, reuní, junto com o Ber e a Tais, tudo o que pensávamos que era melhor produzir aqui, segundo uma lista feita pela Iuli e pelo Emiliano. Organizei a mala de produção, organizei os equipamentos e os distribuí, troquei reais por euros, organizei a verba separada por fases da viagem para ter mais controle dos gastos, reuni toda a equipe para uma reunião, onde dei a todos informações importantes para a viagem, endereço dos lugares onde iríamos nos hospedar e entreguei a todos cópias das passagens, cartas de autorizações, apólices de seguros e tudo que pudesse evitar problemas na tão temida imigração. Três dias antes de embarcar, decidi que ia relaxar e descansar, pois o que não estava resolvido até então só seria dissolvido na pré, pessoalmente. E foi o que aconteceu.

Embarcamos dia 15 de março e chegamos em Roma com chuva. O Christian não pode nos receber porque tinha um compromisso em Padova e só chegaria em Roma à noite, então nos esperava no aeroporto o Stefano Andrini. O Stefano é casado com uma brasileira, e veio ao Brasil visitar a família dela e tivemos a oportunidade de nos encontrar aqui duas vezes. Direto do aeroporto, fizemos uma visita ao Centro Sperimentale de Cinematografia – onde a mãe do Stefano, Elisabetta Bruscolini, é coordenadora geral de produção, e lá encontramos pela primeira vez, pessoalmente, nossa atriz Miriam Marini. Logo depois, conheci pessoalmente o Chris, a Marta e a Cláudia Davalli, produtora associada à JengaFilm em Roma.

Vou resumir um pouco as questões encontradas e solucionadas na pré produção, para que essa narrativa não se transforme em um diário dia a dia, e sim um apanhado mais objetivo de questões de produção e questões pessoais, porque é difícil para mim separar essas duas premissas. Na pré encontramos locações, desistimos de outras, passamos frio nos Alpes, nos emocionamos com paisagens lindas. Os diretores, como eu previa, enlouqueceram e queriam gravar em todos os lugares. O cronograma logístico feito por mim antes da viagem se manteve na medida do possível, pois depois das bases fechadas era complicado mudar, mas dentro das cidades, de acordo com a luz, o deslocamento e o tempo, o cronograma dos pobres assistentes de direção foi rasgado em mil pedacinhos e reconstruído incontáveis vezes. Combinei de enviar um pré-cronograma com essas mudanças para eles nos ultimo dias de pré, antes da Iuli embarcar, mas não preciso dizer que o cronograma continuou mudando incessantemente e que era inútil tentar o contrário.

Durante as gravações, meu maior desafio na produção foi lidar com preços em euros. Eu sabia o quanto era fácil, de uma hora para outra, um imprevisto fazer com que o orçamento estourasse. Por isso, no início foi inevitável ficar convertendo tudo o que era pago. Um almoço para equipe e atores chegava a custar 200 euros e, mesmo com todos os apoios que conseguimos, esses valores gritavam nas planilhas e causavam uma certa insegurança. Fiz um sistema de envelopes por rubricas que deu muito certo. Separei o que supunha que podia gastar com cada item – transporte, alimentação, hospedagem e “props” (objetos e itens de produção) – pra cada cidade, e de tempos em tempos fazia o cálculo da porcentagem gasta de acordo com o tempo que tinhamos ainda para ficar. No final de cada período em cada cidade fazia o fechamento da etapa e chegava à sobra ou ao estouro. Se sobrasse guardava em um envelope que chamava “emergência”, que usava para cobrir estouros posteriores. Quando cheguei no Brasil, o envelope de emergência continha aproximadamente 2 mil euros.

Roma e Veneza eram os locais mais tensos e complicados para a produção. Para as gravações em Veneza, conseguimos a autorização da Film Comission e da Prefeitura apenas alguns dias antes das diárias. A cena das gôndolas, tão esperada, decorreu tranquilamente. Porém, em Veneza tínhamos mais um desafio. Não tínhamos nenhuma possibilidade de transporte além da caminhada. Os trens chegam à Veneza e após isso, tudo a pé. Impossível tomar os chamados “taxi boats”. Eram caríssimos. Assim, toda a equipe, nas duas diárias de Veneza, caminhou uma média de 5 kilômetros ao dia, carregando todo o equipamento e material de produção. Os atores cansavam, e estas foram, para mim, as diárias mais difíceis de toda a série. Com excessão de uma.

Dedico alguns parágrafos à essa diária em específico, e acho que o porquê é justificável. perade, faziatem - transporte, ura apenas alguns dias antes das diça "a ficar. No final de cada perade, faziatem - transporte,

Era uma diária que se supunha ser tranquila, pois estávamos em Padova e nos sentíamos em casa, afinal, era a cidade do Chris e da Marta. Tínhamos algumas cenas de passagem, uma cena de entrevista, mais a cena do kebab e a cena da loja de souvenirs. Simples? Não. Quando, na noite anterior, fui fazer o check list de produção, cheguei à conclusão que tínhamos 5 trocas de figurino. Até aí tudo bem, passei tudo, coloquei nos cabides e deixei a postos. Tinhamos uma distância de uns 20 minutos à pé entre uma locação e outra e mais de uma vez não podíamos rodar as cenas que eram mais perto umas das outras por questões de horários de estabelecimentos e luz. Ou seja, o dia todo vai e volta, passando mil vezes pelo mesmo lugar, com todos os figurinos, que obviamente tinha que passar de novo na hora das cenas.

A cena da estrevista foi marcada para as 9hs da manhã, e os diretores queriam que a entrevistada estivesse saboreando um “típico gelato italiano”. Porém, às 9hs da manhã, não havia nenhuma gelateria aberta. Resultado: bati numa gelateria que estava fechada, mas que havia visto uma mulher entrando minutos antes. Praticamente implorei por um sorvete e ela deixou eu entrar e comprar. Caminhamos bastante, fizemos umas duas cenas de passagem com a Miriam e o Tombini e, depois do almoço, fomos para o Kebab. Nesse momento eu estava muito febril e quase não consegui acompanhar a cena. Tomei um remédio e fiquei no carro tentando me recuperar, de olho na equipe que estava do outro lado da rua.

Por causa do desconforto que o sapato do personagem causava, o Artur, nos deslocamentos entre uma locação e outra, usava tênis, e essa é uma informação importante para explicar o que houve à seguir.

Saíamos do kebab à pé pois a locação seguinte, a loja de souvenirs, era “muito perto” dali, e como o carro estava já estacionado, não fazia sentido dar uma volta para parar a umas 5 ou 6 quadras dali. Claro que nesse momento o cansaço e o peso das bagagens fazem 5 quadras parecer 10, mas tudo bem. Chegamos e preparamos para gravar. Na hora de fazer o primeiro plano, um aberto, percebemos que o sapato do Artur, aquele que o personagem usava, tinha ficado no carro. “Vamos fazer o fechado dos DVDs e enquanto isso a Mariana corre lá e pega”. Mas… cadê os DVDs? No dia que organizamos a mala de produção antes de sair do Brasil, estavam lá em casa o Poli, o Boca e o Rafa, e me questionaram porque eu estava levando caixas de DVDs do Brasil. “Leva só as capinhas impressas, as caixinhas tu produz lá”. Eu pensei um pouco, pois já tinha tantas coisas para produzir na Itália, e as caixinhas estavam ali, à mão… mas quando a mala começou a ficar pequena para tanta coisa, cedi à insistência e resolvi deixar. Óbvio que, no meio de tantas coisas, esqueci de comprar as malditas caixinhas.

Resultado: eu tinha a pressão de correr lá e pegar os sapato porque estavam apenas esperando por isso. E ainda tinha que resolver a questão das caixinhas. O Chris e a Marta saíram procurar uma livraria ou algo parecido, enquanto eu corri quatro ou cinco quadras em direção ao carro. Eu quase chorava de raiva do momento que ouvi os guris e resolvi deixar aquelas caixas desgraçadas em Porto Alegre. Meu corpo doía e minha cabeça mais ainda. Resolvi caminhar. De repente, passando por uma pracinha, vi um senhor sentado com uma bicicleta ao lado. No desespero não tive dúvida: pedi a bicicleta emprestada. Disse que deixava um dinheiro como garantia de que devolveria em 15 minutos, era porque eu realmente estava com muita pressa, tentei explicar, pedi “per favore”. Ele, com um sorriso simpatico no rosto, que aumentou minhas esperanças, disse: NO. Corri até o carro. Voltei com os sapatos, mas a caixinha não teve jeito. Nem eu, nem o Chris e nem a Marta achamos um lugar que vendesse, locasse, ou algo parecido. Os diretores resolveram de outra forma que não aparece o que eles compram na loja, e as caixas de DVD são reveladas na cena posterior. Ficou bom. Mas mesmo assim me culpo por esse lapso. Apelidei essa diária de “diária do cão”.

Quando acabavam as diárias, não tinha acabado. Ainda chegava no hotel, organizava os figurinos e objetos para o dia seguinte, logava e fazia o backup do material. Para quem me conhece e conhece a necessidade de 8hs a 10hs de sono por dia, pode imaginar como eu estava depois de vinte e poucos dias dormindo no máximo 6 horas. Haja café.

Durante o set, depois que tudo estava pronto para gravar, minha função era outra. Pensar onde comer no dia seguinte, e também cuidar do bem estar dos “viajantes”. Uma vez por semana, levava os figurinos e as roupas de todos para lavar, aguardava, dobrava tudo, com a ajuda da Marta e colocava em grandes sacos. Quando chegávamos na base as roupas eram separadas por quarto e voilá, todo mundo cheiroso. Quanto à alimentação, fizemos o melhor que pudemos. Três refeições ao dia, com cafés e brioches fora de hora, sempre que sentissem necessidade. O Artur, em Veneza, sentiu o joelho e teve que ter uma atenção especial durante alguns dias: antinflamatório, faixa e parcimônia ao caminhar. A Miriam, que é acostumada em casa a comer a comida da mãe, sem carnes e gorduras, começou a ter problemas de pele, assim dizendo, e a maquiagem ficava cada vez mais complicada. Aderimos a uma dieta para ela, e tudo o que ela ia comer eu controlava, para solucionar o problema. Menos pizza, menos frituras, mais saladas e massas mais leves. Parte da equipe, e decorrência do frio constante, ficaram resfriados, mas nada que impedisse de sair para gravar. No final, tudo deu certo. Voltamos com imagens belíssimas, orçamento dentro do previsto, todos saudáveis e contentes. Cansados, claro, mas satisfeitos.

Quando voltamos da Itália, ainda em meio a fechamento financeiro do que chamei “a primeira parte do projeto” e a questões ligadas à edição e finalização, comecei a pensar mais atenciosamente nas gravações que ainda viriam em Bento. Antes de ir para a Itália, devido aos momentos de sobrecarga de trabalho, havia decidido que teria um diretor de produção aqui no Brasil e ficaria apenas com a coordenação de produção. Porém, já tinhamos atores, já tinhamos locações, tudo o que restava era pensar em produção de figurino, objetos e na logística. Resolvi que, depois de tudo o que havia feito na Itália, poderia assumir isso sozinha.

Formamos uma equipe reduzida, porém desta vez bem maior e com mais condições do que trabalhamos na Itália. Eram 25 pessoas de Porto Alegre na equipe, mais um produtor de campo, três assistentes de produção e uma assistente de figurino de Bento. Optamos por trabalhar no mesmo sistema da Italia. Eu passava as demandas na pré para a produção local e eles buscavam opções. Deu super certo. O Felipe Gue Martini e os três alunos da Faculdade Cinecista (Fernando, Ana e Deise), que formavam essa equipe, trabalharam super bem e nada faltou no set. A assistente de figurino, Giana Milani, acessorou o Bruno nas cenas nas quais tínhamos figurantes.

Cenas que provocavam um pouco de medo, como o tão esperado casamento, o acidente de carro e a festa final da série foram além do esperado. Tudo acontecia no tempo, a equipe se entendia e o trabalho rolou na maior tranquilidade. Além disso, tivemos uma sorte inacreditável com a previsão do tempo: 05 dias de sol e céu limpo, como almejávamos.

Nessa experiência, a primeira grande produção da minha carreira nessa função, fizemos uma ficção no exterior. Em números, foram 210 dias de pré produção, 8 mil quilômetros rodados entre Itália e Brasil, 1361 cafés tomados pela equipe, mais de 100 bilhetes de trem, 30 dias de gravação, em 11 cidades, mais de 50 locações, 32 atores, 130 figurantes, 1070 takes, resultando em 800 GB de imagens.

Tivemos que lidar, dia a dia, com o mau humor matinal de uns, ou do excesso de bom humor de outros, que as vezes também incomodava. Tive que pensar não só na série, mas no bem estar e conforto de cada um dos meus chamados “viajantes”, o que as vezes causava uma leve irritação dos diretores, que queriam gravar mais e mais, sem o tão necessário descanso. Aprendi, mais do que como resolver situações adversas complicadas, a ser mais flexivel e mais paciente, e aprendi que, mais do que nunca, a premissa “não tem solução, solucionado está” existe e funciona. Os diretores se obrigaram a ser criativos e o fizeram com maestria. Admiro muito a flexibilidade dos dois, que as vezes tinham que se abster de um plano por falta de tempo, ou resolver de uma maneira mais fácil alguma cena complicada. Fora o fato de que dividir direção não é para qualquer um. Muitas vezes um dos dois tinha que abrir mão de alguma peferência em detrimento do outro. Os atores tiveram que ajudar a carregar seus próprios figurinos e as vezes até algum material de produção que ficava sem braços entre os memboros da equipe. O Fernando, sempre atento e perfeccionista com relação aos ruídos inesperados, também teve que se adaptar, e o fez com um bom humor incomparável. Causava acessos de riso em mim e no Leo. O Leo, por sua vez, foi para a Itália como roteirista, para ajudar sendo um voto de minerva quando os diretores estivessem discordando, para cuidar da continuidade e para reescrever alguma cena que não pudéssemos gravar por qualquer questão inesperada (o que não precisamos fazer), e acabou me ajudando muito, apesar de nem ele perceber. O tripé já fazia parte do corpo do Leo, que o carregava incansavelmente até mesmo nas diárias nas quais ele não era usado – essa situação inclusive virou piada entre a equipe. O Poli, praticamente sem luz, mostrou no set que de menino tem só a idade e o tamanho. Foi elogiado inúmeras vezes pelo Christian, que chegou a dizer mais de uma vez que “lhe faltava um diretor de fotografia bom como o Poli”. Orgulho. A Iuli, que chegou na Itália tímida, sem muita intimidade para cobrar tempos e botar limite no deslumbre sem fim dos diretores, terminou as gravações completamente mudada. Em um dos últimos dias, em uma locação que não me lembro bem qual era, a observei de longe mostrando o relógio para um dos diretores, bem séria. Ri sozinha e fiquei orgulhosa mais uma vez. Eu sempre costumo dizer que, no cinema, o filme é do diretor, a equipe é do produtor, e o set é do assistente. Me sinto previlegiada por ter tido e aceitado comigo uma equipe como essa. Termino aqui dizendo que não tivemos sorte, e sim competência. Competência no planejamento, nas escolhas, na logística. E, no que compete a mim, também responsabilizo minha personalidade exageradamente metódica pelo sucesso desse projeto. Essa foi, até agora, a mais cansativa e desesperadora, mas também a melhor experiência da minha vida. Demo via!

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