domingo, 8 de maio de 2011

Sapore d´Italia, por Boca Migotto.

O projeto Sapore d’Italia, o qual acabamos de gravar em terras italianas e agora nos preparamos para as gravações em Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha, é marcado por algumas particulariedades que pretendo, aqui, trazer a público. Acredito que dividir um pouco dessa experiência é uma forma de compartilhar essa chance única que tivemos de realizar uma produção internacional e, também, ao mesmo tempo, uma espécie de reflexão pessoal sobre todo o processo.

Foram mais de 6000 quilômetros rodados entre Roma e a Regione del Vêneto, na Itália, durante 30 dias. Mais de 50 locações, 890 claquetes realizadas pela nossa assistente de direção, Iuli Gerbase, muita pizza, massa, pão, azeite e muito, muito café. Mas também muito trabalho, muito deslocamento a pé, carregando equipamento, objetos de cena e figurino nas costas e muito trabalho. Ainda falta rodar em Bento Gonçalves as cenas que iniciam e finalizam a série. Será mais uma semana de gravações intensas que contará com uma equipe maior que a equipe que tinhamos na Itália. Aqui no Brasil seremos em torno de 25 pessoas enquanto lá resolvíamos as gravações com uma equipe de 12 integrantes. Para que tudo desse certo foi preciso um planejamento longo que durou meses e pensou inúmeras possibilidades de logística para as gravações na Itália. Boa parte desse planejamento foi realizado em parceria com a JengaFilms, produtora italiana com quem a Epifania Filmes fechou uma acordo e que foi essencial para o sucesso do projeto. Pretendo falar um pouco sobre tudo isso, desde o nascimento de Sapore d’Italia, há mais de um ano atrás, até agora, quando estamos nos preparamos para as gravações em Bento Gonçalves. É importante, no entanto, lembrar ao leitor, que esse texto reflete um olhar particular sobre o processo, o meu. Seria interessante poder relacionar minhas reflexões e observações com o olhar dos demais participantes do projeto. Mas isso é outra história, mais para diante quem sabe.


Equipe Na Itália.

Sapore d’Italia nasceu, para mim, em 2008, quando realizei a série Na Trilha dos Rios, pela Estação Elétrica, para a RBS TV. Foram cinco programas sobre os rios gaúchos e um deles era sobre o Rio das Antas, que nasce em São José dos Ausentes e corta as terras colonizadas pelos italianos na Serra Gaúcha. Foi dirigindo esse documentário que conheci César Prezzi que, por sua vez, me contou a história de um italiano e um alemão que lutaram na Primeira Guerra Mundial, um quase matou o outro e, depois de 30 anos, o acaso os colocou trabalhando lado a lado aqui no Rio Grande do Sul, na cidade de Marau. Apresentei essa história para a RBS TV, afim de realizar um curta para a série Histórias Extraordinárias, e chamei o ator Rafael Tombini, que tem uma forte relação com a Itália, já morou na Toscana e fala italiano, para interpretar o personagem de Massimiliano Cremonese. Durante as gravações, Prezzi, que é consultor do Comitatto Vêneto no Rio Grande do Sul, ofereceu a Tombini uma passagem para a Itália, para realizar uma viagem de intercâmbio. Tombini, muito astuto, teve a ideia de montar uma mostra dos curtas realizados pela RBS TV com temática sobre a imigração italiana. Dessa forma, Tombini levou para essa viagem três curtas meus; Rio das Antas – Vale da Fé (2008), O Homem dos Raios (2009) e Frente a Frente (2010) os quais ajudaram a abrir algumas portas na Itália para essa série.

Durante a apresentação da idéia sobre a mostra ao diretor do Núcleo de Especiais da RBS, Gilberto Perin, Tombini falou que ele, o diretor Rafael Ferretti e o roteirista Leonardo Garcia tinham um argumento para filmar na Espanha uma série, mas que esta não havia vingado. Ao sair da TV, então, Tombini me convidou para participar desse projeto e, juntos, nós quarto chegamos a conclusão que seria uma boa oportunidade para adaptar o projeto da Espanha para a Itália, uma vez que em 2011 se comemoraria o Ano da Itália no Brasil, e apresentar o mesmo para a RBS TV. Durante quase seis meses nos encontramos sistematicamente para desenvolver argumento, sinopse e analisar algumas possibilidades de produção na Itália, nessa época ainda muito vagas. A viagem que Tombini realizou, a convite de Prezzi, serviu para realizar contatos mais diretos com as Film Comissions e prefeituras do Vêneto e nos dar coragem para realmente tocar o projeto. Era possível filmar na Itália sim.

Após a viagem de Tombini, entretanto, com novas informações sobre as cidades onde pensávamos em gravar, percebemos que o argumento inicial seria muito difícil de realizar. A idéia inicial era de dois persoangens, Marco e Simone, vividos por Rafael Tombini e Artur Pinto, se perderem pelas principais capitais italianas. Os contatos realizados por Tombini nessa viagem nos fizeram perceber que o deslocamento de capital em capital seria muito custoso, demorado e desnecessário. Um dos diferenciais do projeto poderia ser justamente o fato de concentrarmos as gravações na Região do Vêneto, em cidades médias e pequenas, mais charmosas e mais fáceis de produzir. Além disso, é daquela região que a maioria dos italianos que poavaram a Serra Gaúcha são oriundos.

A ousadia do projeto estava justamente em apresentar uma idéia de gravar uma série de ficção internacional, inédita para a RBS TV, que já havia realizado vários documentários fora do Brasil, mas nunca uma ficção, o que é consideravelmente mais complexo e caro. Para isso pensamos numa equipe enxuta formada pelos dois atores, mais eu e o Rafael Ferretti, que além da direção dos programas seríamos os fotógrafos e operadores de câmera, e pelo roteirista Leo Garcia que, apesar de não ter experiência de set, seria o operador de som. Ou seja, iríamos para essa viagem como criadores do projeto pois pensávamos que uma equipe maior poderia significar a inviabilidade da série uma vez que sabíamos que o possível orçamento da RBS TV para esse projeto não excederia muito mais que os valores já praticados em outras série da TV,  como Histórias Curtas ou Histórias Extraordinárias. É um orçamento bom para curtas e documentários gravados aqui no Rio Grande do Sul, mas para uma produção internacional de ficção, tínhamos medo de que o orçamento não seria suficiente. Esse medo aumentou depois de uma reunião com a Gerente de Programação da RBS TV, Alice Urbim, que nos alertou mais ainda sobre essa possibilidade.

O projeto foi aprovado pela RBS TV em julho de 2010. Estávamos em Marcelino Ramos, gravando o episódio do Histórias Curtas, Silêncio (2010), dirigido pela minha sócia Mariana Müller, mais uma vez com a participação do Rafael Tombini, quando recebemos uma ligação do Núcleo de Especiais da RBS dizendo que a série iria acontecer. A partir desse momento, passamos à criação dos cinco programas que fariam parte da série, através da escaleta das ações. Entre uma reunião e outra, que às vezes acontecia na minha casa, outras vezes na casa do Leo Garcia, a Mariana se integrou ao grupo. A idéia foi pensar uma história metalinguística que nos permitisse adaptação na Itália caso problemas de gravação ocorressem. Marco, um videomaker ou jornalista, nesse momento ainda não haviamos definido sua profissão, de uma pequena produtora de Bento Gonçalves e seu amigo Simone, um italiano que vive há 30 anos no Brasil, fugido de sua cidade natal no Vêneto por algum motivo que ninguém sabe, são convidados a realizar uma série de reportagens sobre as delícias da culinária italiana. Para Marco, uma oportunidade única de se reestabelecer de uma desilusão amorosa com a filha do seu chefe, para Simone, mesmo que contrariado com a possibilidade de retornar à Itália, a oportunidade de salvar sua cantina que está a beira da falência. Assim, os dois vão para a Itália com a missão de realizar essas gravações pelas principais capitais do país. A série de Marco e Simone se chamaria Sapore d’Italia, clichê que funcionaria para definir a proposta principal que era mostrar uma Itália atual, contemporânea. Carcamanos seria o nome da nossa série. Entretanto, o departamento de marketing da RBS TV achou que o termo carcamanos estava muito ligado a imigração italiana em São Paulo e sugeriu que o nome da série fosse um só. Tanto a nossa série, como a série dos personagens Marco e Simone, ficou definida como Sapore d’Italia, nome que num primeiro momento não achávamos o mais adequado mas que, com o andamento do projeto, percebemos que funcionaria bem comercialmente.

Tínhamos, na Itália, até então, a participação quase certa de uma atriz chamada Miriam Marini que, num primeiro momento, teria um papel bem secundário na trama como a italiana Francesca, uma estudante de artes. Entretanto, ao apresentar a primeira escaleta dos cinco programas para o Gilberto Perin, ele achou que poderíamos ir mais longe, trazer mais a Francesca para a trama e usar mais atores italianos do que havíamos previsto. Isso fez com que revíssemos todo o projeto, afinal, a partir dessa resolução, o projeto ampliaria em muito seus desafios. Com essa nova guinada do projeto, a solução foi concentrar ainda mais as gravações no Vêneto em virtude dos contatos que tínhamos e ainda poderiamos construir, por um lado, a partir da atriz Miriam Marini e, de outro lado, a partir das instituições de Bento Gonçalves, que já há anos realizam intercâmbios com as prefeituras do Vêneto.

Desse momento em diante, então, o roteiro passou a ganhar ares de grande produção, com inúmeras cenas de dificil realização, cenas complexas de perseguição pelas ruelas de Veneza, cenas com muitos figurantes, cenas com acidente de carro, cenas com figurinos típicos e cenas com ação dramática que já seriam de difícil realização aqui no Rio Grande do Sul, quem diria na Itália. Foi assim que ganhou espaço na série a personagem de Francesca. No primeiro dia em que Marco e Simone chegam a Roma, Francesca rouba a câmera deles obrigando os dois a se deslocarem para Veneza. A partir daí, a comédia Sapore d’Italia acontece toda no Vêneto pois, por inúmeros motivos, Marco e Simone não conseguem sair daquela região. Por mais que queiram e tentem, sempre acontece alguma coisa que os seguram no Vêneto. Muitos atores e atrizes italianos entraram no projeto, várias cidades foram definidas como locações, entre elas, além de Veneza; Verona, Vicenza, Pádova, Arsiè, Auronzo de Cadore, Pedavena e Belluno.


Nossos atores se preparando para gravar cenas em diferentes momentos.

É importante lembrar que desde as primeiras escaletas que construímos, todos juntos, decidimos por contratar um roteirista de São Paulo que fez um trabalho de consultoria para nós. Assim, construíamos as histórias listando as ações gerais, que depois se transformariam em cenas, e enviávamos ao Ricardo Tiezzi, nosso consultor. Enquanto ele lia o episódio que havíamos enviado, nós trabalhávamos no episódio seguinte e nas observações que retornavam da leitura dele, foi assim durante toda a escaletagem dos programas. Após aprovadas as escaletas pelo Gilberto Perin, iniciamos o processo de roteirização. O Leo Garcia, roteirista da série, trabalhava em cima das escaletas sozinho, mas contando com a opinião dos demais criadores da série. Aos poucos foi roteirizando episódio por episódio. Antes de enviar os roteiros para a aprovação do Gilberto Perin, na RBS TV, nos reuníamos para discutir as observações que haviam vindo do Tiezzi e as nossas própria observações como grupo, realizávamos um segundo tratamento coletivo, refletindo sobre tudo isso e então sim, mandávamos para a leitura do Perin. Esse trabalho todo, metódico e sistemático, foi fundamental para que os roteiros chegassem na RBS TV o mais redondos possíveis. Prova disso é que quase não houveram observações maiores por parte do Perin sobre nenhum dos roteiros.

Após a orientação por complexificar um pouco mais as ações, inserindo mais locações, atores e a própria participação da Miriam, que agora viraria Chef de Cozinha, foi necessário rever a equipe que iria para a Itália. A Mariana já havia começado a orçar todo o projeto, e incluiu nos custos passagens para um diretor de fotografia, o Bruno Polidoro, e um operador de som, o Fernando Basso. Ela ficaria na base, no Brasil, em contato direto com a equipe na Itália e, se possível, com um produtor italiano. Mas isso ainda não era suficiente. Decidimos, todos juntos, que a presença da produção brasileira era indispensável na Itália, mesmo correndo o risco de estourar o orçamento já negociado com a RBS TV. Assim, ganhamos mais uma integrante no grupo que viajaria para as gravações. A última peça na equipe surgiu apenas um mês antes de viajar. A assistente de direção Iuli Gerbase, que estava trabalhando na pré-produção no Brasil, propôs sua ida para a Itália e a Mariana achou que a presença dela seria importante. A princípio não teriamos como levar mais uma pessoa para itália, mas com essa proposta da Iuli e percebendo a necessidade de contar com uma assistente para agilizar o set, realocamos o transporte, a hospedagem e a verba de alimentação e levamos a Iuli que, lá, foi primordial para vencermos a enorme quantidade de cenas que tinhamos para realizar.


Iuli e Mariana: as duas últimas integrantes da equipe na viagem.


Através da nossa atriz, Miriam, conhecemos a JengaFilms, uma produtora de Pádova que tem como sócios o casal Christian Cinetto e Marta Ridolfi. Através de uma parceria de produção Epifania Filmes e JengaFilms, na qual Christian e Marta produziam demandas geradas por nós aqui no Brasil, vieram as autorizações para gravármos nas ruas das cidades do Vêneto, a organização da logística de transporte, locações, hospedagem e alimentação, e a indicação dos atores e atrizes que poderiam participar da série topando trabalhar por um cachê simbólico. Sem eles, tenho certeza que tudo o que realizamos na Itália, com tanta qualidade e em tão pouco tempo, não teria sido possível. Pensando, agora, depois de retornar de lá com todo o material realizado, é incrível perceber que toda nossa organização e preocupação ao longo de quase um ano serviu para que tudo transcorresse de forma tranquila e, assim, vencêssemos nossos objetivos.

No dia 15 de março, embarcamos para a Itália eu, o Rafael Ferretti e a Mariana para realizar uma semana de pré-gravação. Viajaríamos por todas as locações e discutiríamos os detalhes de produção com o Chris e a Marta antes do resto da equipe chegar em Roma, uma semana depois. Nossa chegada na capital italiana se deu numa tarde relativamente fria e muito chuvosa. Chegamos às 4 horas da tarde, com malas de uso pessoal, com nossas roupas, e malas de produção, onde carregávamos objetos de cena, figurinos e parte dos equipamentos que seriam necessários para realizar as gravações na Itália. Nem uma mala se perdeu pelo caminho – um grande temor de todos – e, recebidos pelo amigo Stefano Andrini, saímos do aeroporto, depois de mais de 20 horas de viagem, com escalas no Rio de Janeiro e Madri, direto para o Centro Sperimentale de Cinema – escola de cinema do governo italiano – onde iríamos discutir um possível apoio de logística para as gravações em Roma. 


Ferretti, Mariana e eu em Madrid e nós no avião rumo a Roma.

No dia seguinte, às 8 horas da manhã, já estavamos de pé, sob chuva e frio, percorrendo as ruas do centro de Roma para visitar as locações pré-estabeleciadas. Era feriado, dia reservado para a comemoração dos 150 anos da unificação da Itália e as ruas estavam belíssimas com bandeiras tricolores estendidas por todos os cantos. Visitamos nesse dia a Piazza di Spagna, a Fontana di Trevi, o Colosseum, Piazza Navona entre tantas outras possibilidades de locação. Também passamos pela estação Roma Termini, principal concentração de trens da capital italiana e um bar que serviria de locação para a cena de quando Marco conhece Francesca. Durante todo o deslocamento, realizado a pé e de metrô, pois a cidade não permite um trânsito ágil de veículos, os produtores Chris e Marta, acompanhados da produtora local da JengaFilms em Roma, Cláudia Davalli, nos guiaram. Foram dois dias em Roma antes de viajarmos para o Vêneto, região onde a maioria das cenas seria rodada.

 

As bandeiras celebravam os 150 anos de unificação da Itália. Nós três na Fontana pedindo que tudo desse certo.

Sempre nos acompanhando, também, estava parte do equipamento fotográfico. Optamos realizar as gravações com duas cameras Canon 7D, que gravam em resolução Full HD e tem como diferencial da maioria das câmeras de vídeo a possibilidade de variar o ISO, sensibilidade com relação à luz ambiente. Sabíamos que não contaríamos com equipamentos de luz para gravar na Itália por ser muito difícil o transporte do equipamento do Brasil para lá e por ser muito cara a locação na Itália. Por isso, optamos por essas câmeras que respondem bem à baixa incidência de luz, além da vantagem da qualidade de textura de imagem que se consegue tirar dessas câmeras graças à possibilidade de troca das lentes. Optamos também por utilizar duas câmeras durante as gravações, pois acreditávamos que isso nos daria agilidade para vencermos a enorme quantidade de cenas em pouco mais de três semanas. A decisão se mostrou acertada. Com as duas câmeras 7D, ganhamos tempo e obtivemos um belo resultado em termos de qualidade de imagem. E tínhamos também uma terceira câmera, uma Panasonic MiniDV, que era a câmera de cena do personagem Simone, mas que também registrava momentos da história que seriam costurados com as imagens das Canon 7D. Para complementar o desenho de luz, o nosso fotógrafo, Bruno Polidoro, contou apenas com dois pequenos LEDs que levamos conosco, resultado da parceria do projeto com a Apema, de Porto Alegre, mais dois KINO, surpresas bem-vindas que a JengaFilms nos disponibilizou ao longo das gravações. Além disso, foi a criatividade e talento do Bruno, mais alguns rebatedores e chapas de isopor que proporcionaram o excelente resultado da captação das imagens.


A 7D: câmera pequena, porém funcional, que deu origem às imagens.

As nossas referências para a série sempre foram as comédias italianas dos anos 50 e 60 e muitos filmes do Fellini, De Sicca e outros. Outras referências foram também os road movies, pois essa série não deixa de ser um filme de deslocamento. Afinal, são mais de 6000 quilometros percorridos entre Roma e as cidades do Vêneto, tanto pela equipe, como pelos personagens da trama. Por isso, assistimos e revimos alguns filmes de Walter Salles e Win Wenders, além de um pouco de Jim Jarmush que nos influenciou também quanto à decupagem das cenas. Mario Monicelli, um dos principais nomes da comédia italiana do final dos anos 50 e início dos anos 60, foi outra referência essencial na busca da atmosfera dessas comédias italianas que fizeram história naquele período. Assim, assistimos aos filmes de Monicelli como: Cari Amici (1994), Parenti Serpenti (1992), Amici Miei (1982) e outros. Com filmes como Il viaggio di Captan Fracassa (1991) e Bruti, sporchi e cativi (1976), Ettore Scola também se tornou uma referencia natural ao projeto. Eu, pessoalmente, buscava sempre identificar elementos como o “sagrado e o profano”, que aparecem muito nos filmes de Felline, Scola e Monicelli, e incluí-los nos nossos roteiros. As relações familiares marcadas pelo exagero em todos os sentidos, desde a super-proteção da mamma, até as discussões passionais carregadas de amor e ódio, assim como a dicotomia entre aquilo que é pecado ou não, segundo a Igreja Católica, são elementos que estão fortemente arraigado à cultura dos italianos. E isso é tão presente que percebemos até aqui no Brasil, na colônia italiana, os reflexos dessa herança, mais de cem anos depois da imigração. Então, acreditava que trabalhar tais caracterísiticas seria interessante do ponto de vista cultural, mas também, a exemplo dos diretores italianos citados, como elemento que pudesse trazer para a série um pouco mais das características conflitantes dessa persona italiana. Acho que o personagem do Simone, no final, é um pouco dessa esquizofrenia cultural. Luchino Visconti abordou isso de forma magistral em Rocco i suoi fratelli (1960). O italiano é passional e impulsivo, grita, fala alto, se utiliza muito da linguagem corporal para atrair a atenção alheia e se fazer comunicar. Em alguns casos essa verborragia exagerada pode se transformar até em agressividade física, entretanto, na maioria dos casos, é apenas deixar o sangue esfriar para que o outro lado do italiano venha à tona e as desavenças sejam esquecidas. Faz parte dessa característica passional do italiano ser sensível, humano, chorar sem vergonha e brincar com a própria condição cultural. O italiano é alegre, festeiro, engraçado, amigo, mas também, fortemente influenciado pelos ensinamentos da Igreja Católica. Para os italianos, os pecados apontados por Jesus Cristo – e que são sim respeitados, à sua maneira – também são conflitados com o desejo constante pela comida e pelo sexo, pelas bebedeiras regadas a vinho e pelos palavrões que correm solto pelas bocas italianas. É o sagrado e o profano convivendo lado a lado, complementando um ao outro e construindo uma persona complexa e cativante.

O nosso Simone é um personagem riquíssimo pois consegue transitar por quase todas essas características. Simone é o melhor amigo de Marco, é inocente, é afável, é humano, mas também é invocado, ranzinza e irônico em alguns momentos. O pecado da gula está presente no personagem de Simone que, além disso, no passado, cometeu um grande equívoco ao brigar e roubar o irmão antes de fugir para o Brasil. Mesmo assim, ao retornar à Itália e reencontrar Camillo, seu irmão gêmeo, perdoa e é perdoado instantaneamente, como se os motivos daquela briga que os separaram por 30 anos nunca tivessem existido.


Artur José Pinto (o nosso Simone) em um ensaio e gravando uma cena.

Figurino e Arte, respectivamente realizados por Taís Cardoso e Bernardo Zortéia, obedeceram a idéia de caracterizar os personagens conforme sua origem, reforçando as características pessoais de cada um dos três principais. Marco é uma mistura entre o clássico e o despojado, um tanto equivocado em alguns momentos e, pelo fato de nunca ter saído de Bento Gonçalves, seu universo é também um tanto limitado. Nasceu, cresceu e viveu em uma pequena cidade que carrega em si e em seus habitantes o conceito pejorativo de colono. Mas também é filho de uma terra que achou seu diferencial, apostando justamente nessa herança cultural do italiano e transformando isso em um ponto forte para toda a região serrana. O bento gonçalvense desconstruiu a essência negativa sobre a palavra colono que passou, hoje, a ser sinônimo de riqueza cultural. Ser de Bento, hoje é legal pois é uma cidade moderna que consegue conciliar seu modernismo à sua tradição, é uma cidade conhecida pelos seus vinhos finos, pelas suas belezas naturais e pela sua indústria de ponta, além do fato de que, hoje, esse descendente italiano é um ser globalizado por excelência. Em Bento fala-se mais de uma língua e a maioria dos cidadãos daquela região tem direito ao passaporto italiano, salvo conduto para a Comunidade Européia. Marco é um pouco disso tudo e o seu figurino precisava refletir isso e, também, ajudar a caracterizar a transformação que todos nós sofremos após uma longa viagem. Isso deve ficar mais nítido nas gravações em Bento quando teremos o Marco antes da viagem e o Marco pós-viagem. Já Simone é cidadão italiano e, como tal, “exagerado”, é essa imagem que temos do italiano. Ele é gordo e por isso usa suspensórios, roupas mais simples e camisas que trazem um pouco da Itália que ainda há nele. O figurino de Simone deveria falar um pouco sobre esse sentimento do imigrante, um ser que não pertence a lugar nenhum, que vive no limbo entre aquilo que foi e aquilo no que se transformou. 


O atrapalhado e espontâneo Marco (Rafael Tombini).

Já Francesca é bipolar, romântica, astuta, curte a vida, uma Chef de Cozinha que está começando sua carreria, mas também é inconstante, passional, e seu figurino deveria ressaltar a sua beleza nos momentos de ternura, como também causar um certo estranhamento entre as roupas delicadas que usa e os seus momentos de fúria, importantes para o personagem, principalmente quando briga com Marco.


Miriam Marini em momento descontraído com Tombini e na pele de Francesca.

Nem Taís nem Bernardo puderam ir para a Itália, mas tanto a arte como o figurino foram tão bem construídos que a equipe assimilou muito bem essa relação entre as roupas e as características dos personagens e, assim, nós diretores, a produção e o roteirista conseguíamos controlar isso na Itália. Os figurinos, por exemplo, já sairam do Brasil pré-definidos por cena e, na Itália, sofreram alguma pequena adaptação conforme a locação ou a situação onde estávamos gravando. Já os objetos de cena foram, na maioria, produzidos pelo Bernardo aqui no Brasil e levados por nós. Outros, perecíveis ou de mais fácil produção em terras italianas, foram sendo produzidos ao longo das gravações.

Ao final de cada diária, que muitas vezes ultrapassava 12 horas, nos reuníamos para rever as cenas e discutir as gravações do dia seguinte. Nessas reuniões já se pensava o figurino de cada cena que seria gravada, além dos objetos de cena que precisariam estar conosco no dia seguinte. A Mariana passava as roupas e já deixava tudo pronto para o dia seguinte. Uma grande dificuldade, que me parece ter sido vencida com certo mérito, foi a continuidade. Eram muitas cenas por diária, as vezes vários figurinos, com o agravante de que deveria ocorrer uma transformação nos personagens e não haviamos, na Itália, uma pessoa indicada exclusivamente para pensar isso. A solução que achamos foi a Iuli montar um mosaico das cenas gravadas, a partir de fotografias e em ordem conforme os roteiros. Sinceramente, não sei até onde isso foi realizado plenamente levando em conta a falta de tempo para confeccionar esse mosaico, mas a partir dessa ideia tanto a Iuli quando o Léo Garcia passaram a fotografar insistentemente os persoangens e as cenas o que, por si só, já serviu como um alerta para a necessidade de prestar atenção na continuidade. O Léo foi um cara que, nas gravações, se ateve muito a isso. Outra dificuldade foi o clima, e só não foi maior pois o tempo nos ajudou. Choveu apenas dois dias em todo o período de gravação e, quando isso ocorreu, a produção substituiu as diárias externas para internas, acreditando muito na previsão do tempo italiana – que funciona, e bem.  Entretanto, algumas cenas que deveriam ocorrer em ambientes frios, como em Pedavena, cidade onde morava a Mamma de Francesca, foram realizadas sob um sol escaldante de 25 graus. Nesse caso, a preocupação era evitar no enquadramento pessoas que estivessem usando roupas leves.

Vimos a primavera acontecer sob nosso olhar passageiro. Quando saímos de Roma para realizar a pré-gravação no Vêneto, já não chovia mais, mas a temperatura girava em torno de 8 a 10 graus. Em Auronzo de Cadore, nos Alpes, chegamos a pegar 2 graus e muita neve acumulada às margens das rodovias. As árvores estavam secas, os galhos sem vida e sol tímido. De uma semana, da pré-gravação, para outra, quando iniciamos as gravações, tudo se alterou. Aumentou o calor, os galhos começaram a brotar e, em duas semanas apenas, as árvores estavam floridas. Entretanto, o frio e a chuva da primeira semana já haviam realizado o serviço. Uma febre constante e um resfriado que ia e vinha o tempo todo acompanhou alguns integrantes da equipe, entre eles eu. Mesmo assim, tivemos sorte de não ser nada muito grave e conseguimos levar o trabalho adiante. O calor do Vêneto era um calor seco, lembrava um pouco Brasília, não era abafado e exageradamente quente como no Brasil, mas essa secura acompanhada de uma temperatura de 22 a 25 graus já causava um desconforto constante. Lábios sempre rachados e gargantas sempre secas, e isso num lugar onde uma garrafa de água pode ser mais cara que uma garrafa de vinho.

                       

Equipe no calor de Roma e no Frio de Auronzo, 10 dias depois.

Após finalizada a pré-produção nas cidades do Vêneto voltamos para Roma para pegar a equipe no Aeroporto e iniciar as gravações. Foi muito bom rever toda a equipe no aeroporto. Quando vimos todos lá, com suas bagagens, reunidos, nos esperando, ficamos muito aliviados. Era a loucura de gravar no exterior virando realidade. Naquele momento, depois de uma semana inteira convivendo apenas com italianos, estávamos quase falando mais italiano do que português. A nossa comunicação era baseada no idioma deles, nos preparamos para isso, inclusive fazendo curso de italiano antes da viagem. Nas conversas, a idéia era sempre começar com o italiano e ir com ele até onde fosse possível, pensávamos que mais do que comunicação, era uma questão de respeito. A partir do momento que o italiano faltava, cada um buscava falar através do idioma que mais dominava. A Mariana puxava pro espanhol, eu e o Rafa buscávamos no inglês a forma de nos comunicarmos mais claramente com o Chris, que falava um inglês muito bom. Com a Marta a comunicação ficava mais difícil pois ela não dominava a língua anglo-saxã, mas para essas situações extremas, viva o desenho e a mímica. O fato é que depois de duas ou três semanas o italiano deslanchou. Talvez por afinidade com o português, talvez porque o conhecimento de espanhol também ajudava. No meu caso, certamente porque o dialeto vêneto era muito falado em casa. O resultado foi que, a partir desse momento, a equipe, até mesmo entre brasileiros, muitas vezes puxava naturalmente o italiano. O Rafael Tombini e o Fernando Basso falavam um italiano muito bom e auxiliavam o resto da equipe, que até se sentia mal quando era obrigada a falar inglês. Falar uma língua estrangeira nem sempre é fácil, mas duas coisas para aprende-las é necessário saber: quanto mais línguas diferentes se fala ou, pelo menos, se tem noção, e quanto menos medo de errar se tem, mais fácil e rápido se aprende.


Na pré com nossos guias, Christian e Marta.

Naquela noite, após o aeroporto e uma banho no hotel, toda a equipe foi jantar fora. Cardápio: pizza e garrafas de vinho. Enquanto jantávamos, eu, a Mariana e o Rafa começamos a passar as orientações sobre como seriam as gravações em Roma, cidade que considerávamos a mais difícil de rodar pela loucura e pelo frenesi que é a capital da Itália. Logo após a janta todos correram para os seus quartos pois estavam cansados da viagem e no dia seguinte teríamos uma das cenas mais difíceis da série, que era a cena do Coliseu, com figuração e uma quase-briga entre Marco e um gladiador daqueles que ficam lá na frente para tirar fotos com os turistas. As gravações em Roma, como previsto, não foram nada fáceis. Nos deslocamos muito pela cidade a pé e de metrô. Enquanto éramos em cinco pessoas estava tranquilo, mas agora éramos doze pessoas, com equipamento e mochilas de produção pelos metrôs e ruas de uma cidade grande e povoada de turistas. Na primeira diária gravamos no Coliseu pela manhã e pela tarde em um bar onde o Marco se envolve numa briga com torcedores fanáticos da Roma. Tínhamos um pouco de medo dessa primeira diária pois, apesar de termos realizado ensaios em Porto Alegre, simulando situações de ruas em Roma, lá era pra valer, e tinha que ficar bonito. A equipe ainda não estava em perfeita sintonia, a primeira diária é sempre mais demorada até que todos se encontrem no grupo e o grupo se reconheça como tal. Por isso, a diária foi até muito tarde, estava frio, e como o bar precisava abrir a noite, optamos por fazer uma parte da cena em externa, o que também nos ajudava cenograficamente pois as luzes amarelas da cidade nos proporcionava um clima mais intimista. Mas a cena era longa, os atores também ainda não estavam 100% e nós demoramos mais do que era previsto.



A primeira (e complicada) diária em Roma.

Na segunda diária, gravamos na Estação Termini e em outros pontos turisticos da cidade, fechando a diária numa noite agradável em frente a Fontana di Trevi, todos acabados depois de um dia inteiro caminhando por Roma. Nessa diária aconteceu algo bem legal que não estava previsto. No monumento aos combatentes de Guerra, descobrimos que havia um elevador panorâmico que nos levava até o alto do prédio. Era final de tarde e subimos até o alto onde conseguimos fazer imagens lindas de toda Roma até o anoitecer. A segunda diária de Roma acabou na Fontana di Trevi, rodeados por turístas japoneses que fotografavam tudo e todos.


A segunda diária em Roma.

Manhã seguinte, todos no trem com destino a Pádova. Desde a fase de produção pensávamos no norte como uma região onde teriamos três bases. Uma base seria Pádova, e a partir de lá gravaríamos em Veneza, Verona, Vicenza e a própria Pádova. Outra base seria Arsiè, nos alpes, e de lá gravaríamos em Pedavena, Auronzo, Belluno e Arsié. E uma terceira base seria Rovigo, de onde sairíamos para gravar o Delta do Pó. Infelizmente Rovigo caiu duas semanas antes da viagem por opção da produção. Faltavam duas semanas para viajármos e ainda não tínhamos em mãos as autorizações para gravar na cidade, as fotos das locações, e nem apoio de logística. Tudo era difícil de obter, além do fato de Rovigo ser bem longe dos Alpes e de o transporte que tínhamos para nos levar até a região ter caído na última hora. Com isso configuramos Pádova e Arsiè como bases. Rovigo caiu e ganhamos mais dos Alpes já que não precisaríamos nos deslocar até o Delta do Pó que era realmente fora de todo e qualquer roteiro que criávamos. No final, já antes de saírmos de Pádova para os Alpes, substituímos a base em Arsié por uma base em Pedavena, já que era a cidade mais central nos Alpes. Com o apoio do prefeito de Arsiè, Ivano Faoro, uma amiga brasileria que mora em Pedavena, Stefania Putton, junto com o proprietário da Birreria Pedavena, viabilizaram um hotel para nós em Pedavena, a quase dois mil metros de altura com uma vista belíssima e um povo acolhedor que já demonstrava na sua fisionomia e sotaque um pouco da influência cultural austríaca e alemã.

Assim, quando chegamos em Pádova depois de duas diárias complicadas em Roma, estavamos aliviados. A cidade era mais tranquila fazendo com que os deslocamentos também fossem mais rápidos, em Pádova, assim como todas as cidades ao seu redor, tínhamos apoio das Film Comissions e das prefeituras para rodar nos locais que escolhemos na pré-produção além de ser a sede da JengaFilms. Nos sentimos em casa, por assim dizer, e ainda mais porque alí se falava dialeto vêneto, muito familiar para todos nós que tínhamos origem na Serra Gaúcha. E mesmo para os porto alegrenses da equipe, ouvir o pessoal do vêneto falar, com seu sotaque, era quase a mesma coisa que ouvir alguém da Serra falando português, mudava apenas a língua, pois o jeito de falar e até algumas expressões era a mesma.

Mas ainda tínhamos Veneza pela frente. Sabíamos que lá seria difícil também, pois é uma cidade com muitos turistas, até mais do que Roma. E, como agravante, Veneza é uma cidade cortada por canais, onde não há deslocamento de carro, tudo lá é feito a pé ou de barco. Como o barco era muito caro para o nosso orçamento, a solução era mesmo caminhar, carregando os equipamentos até as locações. Uma das cenas mais difíceis de toda a série, na minha concepção, era a perseguição de gôndolas.  No final, essa sequência se mostrou muito mais fácil de ser gravada do que o esperado. Já outras cenas que pareciam, a princípio, mais tranquilas, como um diálogo entre Marco e Francesca em frente a um hotel, se tornou um bicho de sete cabeças. Logo antes de iniciármos a cena, um barco estacionou bem em frente ao hotel que servia de locação para descarregar caixas, com o barulho era impossível gravar e essa função toda durou mais de 40 minutos. Com o atraso, o sol foi mudando, a luz mudou, o fluxo de turistas aumentou e, com tudo isso, a dificuldade de vencer a cena também. Mas é isso, hoje essa cena já está montada e agora temos a certeza de que ela funcionou e, mais do que isso, ficou Linda. Vencemos Veneza também, mas ainda faltava vencer todo um cronogama pela frente.



Gravando a cena das gôndolas.



Em frente ao hotel, caos por causa do áudio.

Uma das grandes satisfações dessa produção foi trabalhar com atores e atrizes italianos. Foi uma experiência completamente nova dirigir falando um idioma que eu não dominava plenamente. Às vezes era preciso fazer grandes rodeios para explicar uma intenção simples e, às vezes, era preciso recorrer ao inglês apesar de ser algo que não me deixava feliz. Quando saí do Brasil coloquei uma coisa na cabeça. Somos latinos, falamos idiomas relativamente parecidos e quero aprender ao máximo o italiano, por isso sempre que conseguir, me comunicarei no idioma deles. Essa estratégia funcionou bem para necessidades básicas, logo o italiano aflorou e garantiu até boas conversas, mas na hora da pressão do set, na hora de ser mais objetivo, o idioma era sim uma barreira até porque, às vezes, os próprios atores não falavam inglês, o que era, sempre, o último recurso. Por outro lado, poderia ter sido uma barreria maior se os atores com quem trabalhamos não fossem tão bons tecnicamente. Destaco alguns dos atores e atrizes com quem foi um prazer trabalhar: Aurora Rufinno, bela e jovem atriz romana que está se destacando no cinema italiano, Titino Carrara, que fez o porteiro cego, um monstro do teatro italiano, pertence a uma família que está há nove gerações trabalhando com teatro; Carla Camporese, a Mamma; Simone Toffanin, o aprendiz de cozinheiro e dublê de Camillo; Guido Laurijni, o Lorenzo, chefe da cozinha onde Francesca pretendia trabalhar e, por fim, Antonella Tosatto, a melhor amiga de Francesca. Esses atores e atrizes entenderam rapidamente a intenção de seus personagens. Com exceção de Antonella, com quem conversamos rapidamente via Skype e a Carla, com quem ainda tivemos o prazer de realizar um ensaio via Skype, os demais conhecemos lá, na hora da gravação e todos, sem exceção, transformaram pequenos papéis e pontas em destaques das cenas nas quais participavam.



Carla, Aurora,


Simone, Guido e


Titino.

O Skype, aliás, foi a grande ferramenta que nos auxiliou tanto na produção como nos ensaios com a Miriam. Ao longo de pelo menos dois meses realizamos inúmeras leituras de texto entre o Rafael Tombini e o Artur Pinto, aqui no Brasil, e a Miriam, que entrava no Skype na Itália, mesmo estando ela quatro horas na nossa frente no fuso horário. Aqui em Porto Alegre era um calor sufocante, típico do verão gaúcho enquanto lá, em Vicenza, um frio abaixo de zero. Eu não gosto do calor, e muitas vezes desejei estar lá, a Miriam, apaixonada pelo Brasil, certamente desejou estar aqui. Foi assim, através do Skype que construímos o personagem de Francesca e aproximamos o Marco e o Simone da amiga italiana. Mesmo com o delay de aproximadamente 5 segundos e as quedas de rede, conseguimos realizar essa série, do ponto de vista da construção dos personagens, graças a essa ferramenta que permitia vermos a Miriam lá na Itália, dirigí-la conforme o que imaginávamos que deveria ser a Francesca e tudo isso sem pagar nada. Mesmo para a produção, se não houvesse o Skype, o orçamento teria estourado ainda antes de viajarmos. Com isso, ao chegarmos em Roma e encontrármos a Miriam pela primeira vez, pessoalmente, debaixo de chuva nos esperando nos portões do Centro Sperimentale de Cinema, era como se já a conhecêssemos há tempo.


Um dos vários ensaios via Skype.

Um projeto como esse, com dois diretores, teve seus pontos altos e baixos. No set, aos poucos fomos percebendo que o Rafa se identificava mais com a construção de enquadramentos e por isso discutia muito a fotografia com o Bruno. Eu, por outro lado, me identifico mais com a direção de atores, marcação de cena, intenção da ação dramática e improvisação. Dessa forma, o Rafa se manteve mais ligado a segunda câmera enquanto eu dirigia os atores. Entretanto, isso não foi uma regra. Sempre discutíamos muito tanto os enquadramentos quanto a atuação de cada cena. Eu operei a câmera em alguns momentos, assim como o Rafa dirigiu os atores outras vezes. Para aquele que estava dirigindo o set, acredito que a maior dificuldade era não poder acompanhar o tempo todo o que estava acontecendo no quadro uma vez que não tínhamos monitor e, para complexificar um pouco mais, tinhamos duas câmeras.

Como nem tudo é mar de rosas, eu e o Rafa entramos em conflito em alguns momentos, devido a estilos e visões diferentes sobre a ação, o enquadramento, a luz, a locação, etc. Entretanto, a diplomacia e a vontade de construir juntos – e quando falo juntos trago para essa concepção de construção também o Leo Garcia, o Bruno e a Iuli – fez com que conseguíssemos suplantar as dificuldades de uma co-direção. O Leo, por exemplo, se preocupava muito com a continuidade das cenas e os diálogos que estavam no roteiro. Muitos diálogos poderiam ser suprimidos, ou trabalhados e modificados conforme a interpretação do ator sobre o mesmo, mas muitos diálogos, às vezes palavras até, eram importantes constar pois tinham um porquê de estar alí. O Leo exerceu muito bem esse cuidado com o roteiro e a integridade dos diálogos, ajudando bastante a direção. Essa foi a primeira vez que realizei uma co-direção, foi também a primeira vez que trabalhei com o Rafa Ferretti, um amigo de certa data, mas que nunca havíamos nos encontrado no set sob forma alguma. Somos de escolas um pouco diferentes e o Rafa tem muito mais estrada que eu, trabalhando com publicidade. Aprendi muito com ele e acho que consegui também retribuir esse aprendizado. Acredito que a fórmula para que essa co-direção tenha dado certo foi sempre discutírmos muito, tudo, excessivamente, o que imaginávamos de cada personagem e de cada cena, inclusive ajudando a construir a escaleta e participado das discussões sobre os roteiros. Mas é claro, rusgas ocorrem e por duas vezes nos afastamos, mais por gênio de cada um do que por outra coisa. Houveram apenas dois momentos em trinta dias de gravação que as diferenças geraram um certo desconforto para o processo. Em uma diária em Belluno foi bastante difícil aproximar as propostas minhas das propostas do Rafa, acredito que isso tenha ocorrido também porque na pré-produção não conseguimos ver e pensar Belluno pois estávamos atrasados para chegar a uma outra cidade. Com isso não discutimos as cenas que faríamos lá e, consequentemente, na gravação, cada um estava com uma visão muito diferente sobre as cenas que gravaríamos. Após a diária de Belluno chamei o Rafa para conversar pois acreditava que deveriamos seguir dialogando em todos os aspectos. Conversamos, falamos sobre o que cada um percebia do outro, fomos bastante sinceros um com o outro e botamos um pedra sobre os problemas daquela diária. Mas talvez estivesse faltando, tanto para mim como para ele, colocar para fora tudo isso com um pouco mais energia, e foi o que ocorreu no dia seguinte. Em Pedavena, uma cena que atrasou e, com isso, criou um efeito dominó no cronograma, a produção pedindo pressa, o Rafa estava no telefone falando com o Brasil e, no meio daquela função, eu assumi a decisão do enquadramento que faríamos sem consultá-lo. Quando estávamos prontos para rodar ele surgiu e pediu para modificar o local de gravação, isso me irritou e nós discutimos. Mas o engraçado é que foi algo muito pontual, uma vez realizado o bate-boca, voltamos ao nosso normal e desde então todas as demais diárias correram na mais perfeita paz, e o que é melhor, na mais perfeita sintonia para juntos seguírmos criando. Co-direção, mais do que tudo, é um grande exercício de humildade e respeito para com o outro.



Eu e o Rafa: duas visões sobre a mesma obra audiovisual. E funciona!

Às vezes me perguntava o que os italianos pensavam de nós. Antes de irmos para a Itália me perguntava se eles não nos chamavam de loucos por propor uma série internacional, com muitas cenas e situações difíceis de produzir, com um orçamento muito justo, que não nos dava muita margem de segurança. Na verdade, eu mesmo me achava louco por assumir um compromisso desses com a RBS TV. Se qualquer coisa desse errado, se a equipe fosse barrada no aeroporto, se perdessem nossas malas de produção, se um dos atores se machucasse, se nosso equipamento fosse roubado, se chovesse todos os dias, enfim, tantas as possibilidades de acontecerem coisas que pudessem inviabilizar a série, nós não tínhamos margem para mexer cronograma nem orçamento. Seria uma catástrofe que poderia custar um processo de quase um milhão de reias sobre a Epifania Filmes levando em conta os valores de produção e veiculação envolvidos em cinco exibições do Núcleo de Especiais. Por isso tenho certeza que, às vezes, é preciso ser um pouco louco sim, para ousar e evitar a acomodação. Mas, uma vez na Itália e percebendo que as coisas estavam andando, me perguntava o que aqueles italianos pensavam do nosso trabalho. Não que isso nos preocupasse ou me preocupasse particularmente, cada povo tem sua forma de trabalhar a partir do seu embasamento cultural. Mas a minha pergunta tinha mais a ver com uma certa curiosidade de como seria aquela produção se a equipe ali fosse italiana, alemã, inglesa. Ou, talvez um pouco de sentimento de terceiro mundo, pois me perguntava se eles nos achavam organizados e, principalmente, se eles percebiam a nossa criatividade em adaptar as situações não favoráveis de forma que fosse possível rodar.

Algumas respostas recebemos da Carla (Camporese, atriz) e do próprio Chris que nos consideravam sim criativos, com forte capacidade de adaptação, um pouco confusos em alguns momentos, mas isso ele creditava ao fato de serem dois direitores, o que certamente deixa tudo mais difícil pois não é uma cabeça que decide no final das contas e sim é preciso sempre chegar a um acordo ou um dos dois abrir mão de suas convicções em função do todo. Era frequente – e agora até soa engraçado – o Bruno nos perguntar se o contra-plano deveria ser com referência e eu dizer que não enquanto o Rafa, quase ao mesmo tempo, diziam sim. Mas a democracia vingou, tanto que às vezes até brincávamos que estavámos de saco cheio dela pois quase tudo – e não falo apenas das competências dos diretores – era decidido coletivamente, e o coletivo sempre é mais demorado. Quanto à percepção dos italianos sobre a nossa organização o Chris dizia, “quem sou eu para falar de organização, nós italianos somos os reis da confusão e da burocracia”. Mas apesar de pensar isso, o Chris foi muito organizado quase o tempo todo e muitas vezes, graças a capacidade dele de burlar a burocracia, as coisas aconteciam. Ele tinha uma vontade enorme de ver as coisas acontecerem e de nos deixar felizes com a produção. Quase tudo que pedíamos a ele, e muitas vezes fazíamos isso em cima da hora devido às características da produção, era pacientemente assimilado por ele que corria atrás para conseguir. Acredito que isso também venha do fato dele ser também diretor e, por esse motivo, entender a vontade da direção de sempre melhorar a cena, criar mais, se permitir mais. O fato é que o Chris foi um dos produtores com quem mais gostei de trabalhar na minha vida, para ele nada – ou quase nada – era impossível. Nenhuma demanda nossa, por mais de última hora que fosse, era recebida por ele com desânimo ou descrença ou negatividade. A gente perguntava se dava e ele prontamente dizia: vaddo a vedere. Só se não fosse realmente possível, ele dizia não. Prova disso é que, ao contrário de cairem locações ao longo das gravações, fato considerado normal em toda produção, na Itália aumentamos o número de locais onde gravamos. Assim, conseguimos aproveitar melhor as paisagens italianas e, ao mesmo tempo, desmembrando cenas longas, ganhamos rítmo para a ação dramática.

Como pode-se perceber, Sapore d’Italia é uma produção atípica por vários motivos. Dois diretores, gravação no exterior, orçamento reduzido, co-produção Brasil-Itália, equipe reduzida e que muitas vezes se via obrigada a acumular funções, diárias longas, muito deslocamento, dificuldades com o idioma e um mergulho quase budista no mar da sociabilidade. Um longa-metragem tem um pouco disso, pois é um trabalho que mexe com os egos da equipe e tem uma duração de também, no mínimo, um mês de trabalho. Mas muitas vezes, num longa, no dia livre, cada um vai para a sua casa, com a sua família e ameniza as tensões dessa convivência cotidiana. No caso do Sapore não, a convivência não só era diária como não havia fuga. Nas duas únicas folgas, todo mundo saiu junto para fazer turismo e permaneceu junto o tempo todo. Incrivelmente não houve nenhuma briga séria, nenhuma discussão mais exaltada e, principalmente, não houve desrespeito entre todos da equipe. Ocorreram sim, alguns problemas, conforme narrei anteriormente, mas sempre houve respeito e paciência para se chegar ao entendimento rápido. Foi maravilhoso trabalhar com essa equipe que estava em total sintonia não apenas profissional, mas também pessoal. Certamente essa capacidade de se relacionar com profissionalismo e, até, carinho durante tanto tempo foi um dos principais fatores que levaram as gravações a atingirem tamanho grau de sucesso.


Dia de Folga: dia de... ficar com a equipe.

Depois das gravações na região de Pádova, subimos as montanhas, até com uma pequena esperança de encontrar um pouco de frio, uma vez que o calor estava se tornando demasiado. Encontramos uma temperatura mais amena, mas não era nem de perto o frio que havíamos encarado na viagem de pré-produção. A Região dos Dolomites, no norte da Itália, é incrivelmente bela. Montanhas enormes cortadas por inúmeros túneis, neve nos cumes das montanhas, cidades que parecem ter saído de um cartão postal com seus campanários medievais e suas ruelas estreitas. Uma das reflexões mais inevitáveis era imaginar que os antigos imigrantes que chegaram ao Brasil e fundaram cidades cosmopolitas como Caxias do Sul e Bento Gonçalves, saíram daquelas cidades paradas no tempo, preservadas e, provavelmente, muito parecidas ainda com os lugares de onde esses corajosos imigrantes saíram para vencer o oceano. Inacreditável pensar que eles tiveram essa coragem de abandorem suas terras, no meio das montanhas, atravessar aquele território todo a pé até Gênova para pegarem um barco que atravessaria o mar em vinte ou trinta dias chegando ao Rio de Janeiro ou Santos. E que essa viagem não terminava por alí, muitos ainda tinham que pegar outro barco até Porto Alegre e, daqui, subir o Rio dos Sinos ou o Rio Taquarí em direção à Serra que naquele tempo estava tomada de mato e animais selvagens. É ainda mais contrastante se pensármos que a nossa viagem de volta durou “apenas” 36 horas e já não aguentávamos mais tantas conexões. Saimos de Pádova para Roma, dormimos apenas quatro horas, no máximo, para na madrugada seguinte seguirmos para o aeroporto. De Roma para Madri, de Madri um vôo de 11 horas para o Rio, no Rio mais quatro horas de espera para chegarmos em Porto Alegre à meia-noite do mesmo dia, graças ao fuso horário que diminuia 5 horas entre a Itália e o Brasil. Esses italianos que vieram para cá naqueles anos são verdadeiros heróis e merecem um filme que conte essa história com propriedade e talento. Esse filme ainda não foi feito, talvez em virtude do enorme desafio que seria realizá-lo no Brasil.


Duas cenas gravadas nos Alpes.

Mas voltando ao Sapore d’Italia, depois das gravações na região de Arsiè, que chamamos de terceira fase italiana, voltamos para Pádova para, no dia seguinte, mesmo dia que deixaríamos o Vêneto, irmos para Veneza de manhã para participarmos de uma coletiva de imprensa no Palácio Baldi, do Governo do Vêneto. Foi uma experiência cansativa, levando em conta que já estávamos há trinta dias na correria, mas também uma experiência única pois fomos levados a ingressar o palácio veneziano como convidados do governador. Atravessar o oceano para realizar um projeto ousado que nos tirou muitas noites de sono e conseguir êxito total na empreitada já era algo incrível para todos nós. Sermos convidados para uma recepção do Governador do Vêneto – por mais chato que isso possa parecer – no mesmo palácio que provavelmente muitos antepassados nossos um dia ajudaram a contruir, foi uma sensação de vitória plena, de trabalho realizado e de reconhecimento pela nossa coragem de propor esse projeto à RBS TV.

Agora, estamos nos preparando para as gravações em Bento Gonçalves. Os apoios na cidade, através da Secretaria de Turismo, do Sindicato dos Hotéis da Serra Gaúcha e da Film Comission de Bento, que ainda está em processo de estruturação, além da comunidade como um todo, nos deixa muito felizes e orgulhosos. Desde a primeira reunião que tivemos em Bento com a Márcia Ferronatto e o César Prezzi, numa cantina da cidade, quando apresentamos um projeto que ainda soava como utopia, levando em conta os desafios que teríamos pela frente, sempre fomos encarados com muito respeito, admiração, seriedade e carinho. É nosso dever e objetivo da equipe de Sapore d’Italia retribuir todo esse afeto e confiança retratando Bento como uma cidade única que, quando editada lado a lado com as imagens feitas na Itália, em nada fique devendo ao velho mundo. Para isso não é nem preciso maquiar Bento Gonçalves, pois ela é naturalmente bela e acolhedora, basta realizar aqui no Brasil o mesmo trabalho sério e empenhado que realizamos na Itália. Se com 12 pessoas voltamos da Itália com um material rico, diversificado e belo, com uma equipe maior, com maior domínio sobre a produção, em uma região que nos sentimos como em casa, tenho certeza que as belas paisagens de Bento complementarão com propriedade a primeira série internacional de ficção realizada pela RBS TV. E esse título é fruto da nossa coragem, mas também de uma boa dose de loucura. Demo via!



Equipe no final da última diária e antes de embarcar de volta ao Brasil. 


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